quarta-feira, 23 de maio de 2012
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Contos do Espelho das Graças
No último cigarro, parte onze:
8:00 AM, ainda é cedo, vou dormir mais um pouco... 9:00 AM, só mais cinco minutos. (...) 11:00 AM, que barulho é esse?! Ah, o interfone... Quem poderia ser? Ai meu dedinho! Que merda esse rodapé da cama, só serve pra bater o pé! Se ele não sustentasse o meu colchão de uma maneira tão eficiente juro que pegava uma serra e transformava tudo em lenha!
- Sim?
Minha voz deve ter saído com um aspecto horrível, a pessoa nem ta respondendo.
- Quem fala?
Eu podia estar dormindo agora, então desembucha!
- Hã... Oi Érica! Aqui é a Alice... Não sei se tu ainda se lembra de mim.
- Alice... Tu não deveria estar na aula agora?
Meu sono me impede de ser educada.
- Eu poderia dizer o mesmo. Mas não. Hoje é a minha “folga” na semana. Posso entrar?
Entrar? Droga, como que ta o meu cabelo? Eu to de calça? Ah, to sim.
- Entra aí.
Eu tenho o tempo dela subir três lances de escada pra dar uma ajeitada aqui. Puts, acho que não vai dar tempo, isso aqui ta um caos! Vou escovar os dentes.
Beee!
Saco, ela já ta na porta! Ok, pelo menos deu pra dar uma escova. Nossa, minha cara ta toda amassada. Vou abrir essa bendita porta marrom.
- Oi Érica! Há quanto tempo... Tu corto o cabelo?
Nossa, a Alice não mudou nada! Parece até que ta com a mesma roupa de quando a gente se viu pela ultima vez. Só os óculos... Esses são redondos e não quadrados, acho que combinou mais com ela.
- Sim e não. Como que tu ta? – Me aproximei e abracei ela, deixando sem reação. Pelo visto eu ainda mexo com ela.
- Bem né. Entediada, mas saudável! Depois que te deu essa Loca aquele curso quase que perdeu a graça. Mas como assim “sim e não”, ele ta bem mais curto do que eu lembrava!
-Bom. É que eu cortei ele, mas já faz um tempo... Na verdade eu cortei em casa na semana passada...
Alice ficou de boca aberta.
- Cruzes! E tu teve coragem? Teu cabelo era tão lindo antes!
- Muito obrigada pelo “antes”, acho que fiz cagada mesmo.
- Ah... Mas ele ta legal agora também. Só da um choque pra quem não ta acostumada.
O primeiro silencio constrangedor em que ela ficou me olhando com aqueles olhos brilhantes se deu início e agora me pergunto se devo perguntar o porque da visita dela ou não. Não sei se quero saber.
- Então... Quer comer alguma coisa? Tem pão e café...
- Na verdade eu vim pensando em te convidar pra almoçar. Precisamos colocar a conversa em dia!
Conversa...
- Aonde seria?
Percebi que tinha uma carteira de cigarro com exatamente O ultimo deles me olhando de cima do balcão da cozinha. Que tentação!
- Isso tu vai ter que descobrir. Não to afim de ficar explicando! Agora tira esse olho de cima daquele cigarro!
Olha! Ta ficando imponente a moça! Pena que agora não seja o momento certo pra isso. Ai Alice. Hoje eu realmente não to com ânimo pra sair.
- Aonde tu quer ir?
- Ah, ta bom! Pode ser em qualquer um aqui perto. Acho que vi um vegetariano bastante promissor pelas redondezas...
Vegetariano? Não chego a ser vegetariana, mas adoro comida sem carne. Se o preço não for muito indigesto até que seria uma boa. Mas o que eu não sei é o que ela veio fazer aqui... Faz tempo que eu não vejo essa guria, mas eu conheço essa cara! Aí tem.
- E então?
- Aiai, que horas são?
- Hora de se mexer! - Lá vai ela entrando pela minha porta toda animadinha – Vamos lá Érica, o que tu tem que fazer pra ficar pronta?
É, acho que não tenho escapatória.
- Espera aí na sala. Daqui a pouco eu to pronta.
- Ta bom. - Voz de triunfo, merda, ela soube exatamente como me convencer. Estudante de psicologia é foda.
Me arrumei rapidamente, nem tinha muito o que fazer com o cabelo, só coloquei um creme pra deixar ele um pouco espetado. O que me incomoda nela são esses jogos psicológicos. Se gosta de mim fala logo guria! Do jeito que as coisas vão eu até poderia te dar uma chance. Só não sei se me arrependeria ou não.
- Já ta pronta?
O que ta fazendo aí na minha estante? Sabia que tava me estudando. Tá, ta bom, eu devo estar exagerando.
- To.
Peguei o gracioso cigarro em cima da mesa e acendi.
- Vamos?
-Vamos. - Olhou torto pra ele como eu sabia que faria.
O restaurante era realmente perto, em menos de dez minutos já estávamos lá. Conheço algumas pessoas que definiriam o lugar como uma espécie de viveiro de “ecochatos”, ou simplesmente como um lugar clean. Até que é agradável... O branco das paredes se quebra com os efeitos da iluminação em tons de amarelo no teto e verde em alguns pontos perto do chão. Tem também esses quadros de frutas e paisagens que por algum motivo os restaurantes adoram. Alice escolheu uma mesa perto da parede, uma pequena pra duas pessoas, e eu a segui.
- Se eu te conheço, tu deve ta se perguntando por que eu te chamei aqui né?
Ela ta usando esse tom de brincadeira, mas eu sinto a cautela na voz dela. Aonde ta querendo chegar?
- É, acho que tu acertou.
-Não se pode esconder nada para os que tem o dom da psicologia! – riu – Bom. Esses dias eu encontrei lá no noss... No prédio da Psicologia o Julho. E me lembrei na hora que ele tinha feito aquelas “consultas” contigo.
Pressinto merda vindo por aí.
- Então decidi falar com ele pra ver se tinha contato com uma certa criatura que sumiu do mapa, não é Érica? Então ele me disse que não te via há tempo também, mas que tu ajudou ele num dia lá na Redenção. Daí eu decidi te visitar pra ver como tu tava...
- Hm.
- É... Vamos nos servir?
- Vamos.
Comi muito, comida vegetariana é tudo de bom! Pena que a comida não desceu tão bem quanto poderia, porque eu sei que ela não terminou o assunto. Ela vai concluir uma análise a qualquer momento.
- Eai?
- Eai o que?
- Gostou da comida?
O volume atual do meu estômago responderia isso por mim.
- Sim, bastante.
Um minuto de silêncio.
- Então Érica – Alice ajeitou os óculos arredondados sem tirar os olhos dos meus, lá vem a conclusão – O que eu queria realmente quando te convidei para vir aqui era te perguntar uma coisa... Não, na verdade fazer uma proposta.
As mãos dela estão em forma de delta com o cume virado para cima sobre a mesa, Alice sabe exatamente o que está fazendo. Que inveja.
- Érica Costa Castro, você aceitaria a mim como sua analista?
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Contos do espelho das graças
Internet... Se eu tivesse uma.
terça-feira, 7 de junho de 2011
Contos do Espelho das Graças
Contos do Espelho das Graças
Adubo de Érica, parte oito
“Mas da onde vc o conhece?” aiai, mais uma vez essa perguntinha? Mas que droga! Eu já respondi! “Não sei se realmente o conheço, é que ele me lembra um menino que eu conheci na infância” “Então porque vcs tavam conversando?” aaah! “A gente não tava conversando. Eu corri com ele pra fugir de um bando de neonazistas”. E o interrogatório pelo bate papo do computador continuou, mas por mais que eu me empenhasse não conseguia convencer Paola da minha inocência.
Também não era pra menos. Eu mesmo me surpreendo de quão absurda a realidade pode ser às vezes, mas o pior de tudo é que era a pura verdade! Mas que ciúme é aquele afinal? Ciúmes de um homem? Como assim? Isso é muita insegurança. Não pode ser sério.
“Érica, acho que isso é uma coisa importante pra ti, só que você não percebeu ainda... Eu vi o olhar na sua cara! E não era normal... Eu preciso saber o que te afeta tanto assim nessa história” “Escuta Paola, não era tu que queria terminar comigo a um tempo atrás? Porque todo esse interesse pela minha vida sentimental de repente, em? Não estou te entendendo.”
Ok. Se arrependimento matasse eu já estaria servindo de adubo pra alguma secóia na América do Norte agora. Como eu queria que esses programinhas tivessem a opção de “apagar”. Seria salvadora essa opção! Que merda, ela não ta respondendo. Ela não deve saber a resposta! Aah que droga. O melhor a fazer depois de uma cagada dessas é deixar a coisa esfriar. Há não ser que isso tenha magoado muito Paola... Mas o que eu to pensando? Ela nem deve ter levado isso a sério! Nosso relacionamento sequer chega a ser oficial. Será que a errada sou eu? Talvez eu devesse ter tomado a iniciativa desde o início... Aonde que ta o meu isqueiro? Mas que merda!
“Érica..” cancelei minha busca por um estante na expectativa do que estava por vir “Não quero pressionar você a nada. Acho que precisamos de um tempo pra colocar a cabeça em dia. E vou tentar fazer isso dar certo dessa vez.”
Paola parece estar offline. As mensagens serão entregues quando esse contato entrar.
Ah, então é aí que tu tava todo esse tempo? Seu danadinho! Vem pra cá. Ascende esse cigarro pra mim, ok? Hoje teremos uma longa noite pra pensar, meu velho amigo. Como será a vida de um adubo?
segunda-feira, 7 de março de 2011
Contos do espelho das graças
Lembro daquela que chamou pelo meu nome no parque a duas semanas atrás. Sua voz era nostálgica aos meus ouvidos, mas isso eu não pude entender... Aquele rosto era familiar, mas não consigo lembrar da onde o conheço. Os olhos verdes e profundos dela era o que mais me intrigava, eu tinha aquela certeza irritante de que os conhecia; como? Tente se lembrar Julho! Estatura mediana, cabelos na altura dos ombros, negros, extremamente negros. A pele contrastava com esse tom forte, era branca, muito branca. Com certeza deveria se cuidar com o sol. Mesmo assim. Não me lembro. Ela não quis revelar seu nome, apenas adivinhou o meu por “coincidência”.
De qualquer forma devo ser grato a ela. Pelo visto o perigo me ronda até onde eu o ignoro. Abro a última gaveta da geladeira: dois cachos de uva. No primeiro os grãos eram saudáveis e graúdos, porém em pouca quantidade. Já o segundo era realmente grande, mas muitos grãos estavam um tanto murchos ou inválidos. Qual deles pegar?
Escolhi o segundo, como se assim estivesse escolhendo meu destino e reconhecendo o meu passado. Um nome me veio em mente: Érica?
domingo, 6 de março de 2011
Contos do Espelho das Graças
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Contos do Espelho das Graças
Gorilas no parque, parte cinco
Nem acredito.
Não acredito que em pleno inverno eu estou aqui na Redenção. Sabe em que mês estamos? Estamos em Julho! É simplesmente o mês em que o inverno começa. Só uma coisa me traria aqui num dia cinza e frio como esse. Ou melhor, uma pessoa. Que por falar nisso ainda não me deu notícias... Aonde anda essa Paola afinal?
Checo o meu celular, que por uma triste coincidência continha uma mensagem de Paola. Gelei. As coisas realmente tem andado meio estranhas. É sempre ela que me procura, quando eu tento alguma coisa não recebo retorno. Mas ela não me daria um cachorro assim na cara dura...
Abri a mensagem. “Surgiu um imprevisto, desculpa amor, mas hj n vou poder te encontrar :*”
Óóó ela me chamou de amor! Que amor. Mas como assim um imprevisto!? Foi idéia dela vir aqui hoje. Arr, essa guria me mata!
Comecei a vagar pelo parque para ver se organizava minha mente. Não tinha muita gente aqui esta tarde. Analisei o ambiente a minha volta. Muitos casais heteros - muitos desperdícios nas mãos de brutões – alguns casos suspeitos e de vez em quando uma que outra bem assumida.
Não gosto de me analisar, tenho medo de minhas conclusões. Mas acho que se me visse na rua conseguiria adivinhar de qual lado do muro estou, afinal nunca tentei me esconder. Mas também nunca fiz questão de me mostrar ao mundo por livre e espontânea vontade...
Um uivo alto e agudo de cachorro me chamou a atenção, causado por alguma surra com certeza. Olhei mais adiante e vi um pequeno grupo de homens bombados e brancos de cabeça raspada. Eram três. Dois com altura mediana e um consideravelmente alto. O maior tinha uma tatuagem nazista na parte superior do braço.
Era só o que me faltava! Mais um daqueles cabeças de rolon com regatas e camisetas justas – para usar uma roupa assim em pleno inverno eles não podem ser normais, talvez estejam sobre efeito de alguma droga. Alguém devia prendê-los antes que façam alguma merda! O que certamente farão. Só espero que não encontrem nenhuma vítima nesse lugar, detestaria ver algum daqueles homens afeminados sendo violentados numa tarde de inverno como esta, onde tudo o que eu queria era estar dormindo.
Olhei em volta. Estávamos perto do lago dos pedalinhos, e tudo o que eu não queria ver estava lá. Um homem jovem e delicado, cabelo bem loiro e escovado. Roupas justas, franja pro lado, óculos de grau retangulares. Vítima encontrada. E agora José?
Para minha mais sincera tristeza o grupo de gorilas albinos na minha frente o localizou quase que ao mesmo tempo. Deram algumas risadas. Se poram a andar na direção do alvo. O frio invadiu minhas roupas e penetrou minha alma. Tentei em vão não rever minhas memórias que passavam como um filme na minha cabeça. Um menino loiro, uma garagem, um ferro de passar roupa. Precisava fazer ele parar. Precisava que alguém parasse. Não sabia o que fazer. Que dia é hoje? Em que mês estou?
- Julho!! – gritei a primeira coisa que consegui pronunciar e corri ao encontro daquele estranho em apuros. Por coincidência ele despertou de seus pensamentos e olhou em minha direção.
Ultrapassei com a maior velocidade que pude aqueles três indivíduos - que pararam para entender o que se passava – eu não sabia o que estava fazendo e também não sabia o que faria, mas meu desespero me guiava. Joguei-me nos braços dele como se fossemos íntimos, não tive estomago para fazer algo além de abraçá-lo forte. – Vamos! Estamos atrasados!
Puxei ele com a maior força que tive. Não foi difícil conduzi-lo, ele parecia leve e frágil apesar de ser quase uma cabeça maior que eu. Não me disse nenhuma palavra e nem ofereceu qualquer resistência. Como se de alguma forma ele esperasse por isso.
Mais um maluco na minha vida, só eu mesmo pra me meter nessas encrencas!
Arrastei o infeliz para a beira do parque, onde se viam os carros e o asfalto. E agora gênio? Quis dar uma de mulher maravilha, muito bem! Agora cuida do mocinho.
- Claro. Correr não me machuca. – a voz dele era firme e grave. Em nada lembrava a sua aparência.
- Arrã. Bom. Tome mais cuidado por aí está bem? Nem todos tem a mente aberta hoje em dia.
- Como assim?
- Ah. Neonazistas, sabe? Tinha três indo na tua direção.
- Nossa. Acho que devo te agradecer então.
- Não precisa. Vou pra casa ver se consigo falar com a minha namorada. – Paola e eu não éramos
exatamente compromissadas, mas era bom deixar as coisas claras afinal.
- Ótimo. Boa sorte então.
- Certo... Vou indo então... (fui me afastando tentando ser natural)
- Pode me responder uma coisa?
- Hm... Posso.
- Como sabia o meu nome?
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Contos do espelho das graças
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Contos do espelho das graças
Pelada no inverno, parte três:
Noite de inverno.
Por acaso sabe o que significa uma maldita noite de inverno?
Significa que eu terei de fazer uma escolha “simples” se quiser sair pro Pub hoje.
Opção um: Usar a roupa que eu quero, ficar bonita e morrer de frio.
Opção dois: Usar uma roupa quente que me deixe um balão.
Quer saber? Pro inferno tudo isso! Vou dormir pelada e ver algum drama bem pesado. Deixe-me ver o que tenho em DVD... Porra, nenhum drama que eu queira rever.
Pena que Requiem for a Dream era da Paola.
Dane-se, vou ver esse com a Kristien Stewart mesmo, assim pelo menos me agrada os olhos.
(TRRRRRRRIIIIIIIIIING!)
Caralho! Quem é o filho da puta que veio me ligar justo agora? Se eu descobrir quem é juro que.
- Alô! – Atendi com o maior desprezo que pude. Tive um choque.
- Oi Érica! Aqui é a Paola. Como você está? Senti tanta saudade sua...
Ah! Sabia que ia sentir uma saudade!
- Ainda viva. Como vai a faculdade? Fiquei sabendo do teu problema com a transferência de curso.
- Ah, deu uns perrengues, mas se Deus quiser vai dar tudo certo. Tem algum programa pra noite?
E agora? Entrego o jogo dizendo que ia ficar em casa na maior merda? “Ah, ia ver uns filmes pra ver se saio da fossa que tu me atiro!”
- Nada em mente.
- Então vamos lá num Pub na cidade baixa, umas amigas minhas falaram super bem, que se acha?
Dúvida.
- Érica?
Ah, se a montanha veio até mim, então que seus frutos sejam bem aproveitados.
- Ta certo então. Só vou trocar de roupa e já vou. Aonde te encontro?
- Hm... Daqui uma meia hora eu passo aí no seu prédio e aí nós duas vamos juntas.
- Ok.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Contos do espelho das graças
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Contos do espelho das graças
(Aqui é a Stone. Sei que o combinado era a madame postar a história dela primeiro, mas azar o dela. A minha foi escrita primeiro. E além do mais é tudo uma questão de interpretação; essa história não é da madame afinal.
Mas que droga. Vou falar do que importa. Imagino que alguns vão ficar meio chocados quando começarem a ler esse conto. Porque fala de lésbicas. Á essas pessoas eu digo: cresçam caramba. Ler essa história não se difere nem um pouco de quando tu lê a história do patinho feio; é tudo ficção e o que interessa é o psicológico dos personagens.
Só mais um aviso: Esse conto terá continuação e parte da história que será montada em pequenos contos a Madame vai participar. É isso, agora não vou mais encher o saco. Podem ler.)
Érica, parte um:
Hoje faz um mês que estamos juntas.
Eu a encaro enquanto ela põe a mesma maldita calça de brim que ela usa todos os sábados quando saímos. Nenhuma palavra. Ela se esqueceu.
Pensei que dessa vez seria diferente, mas me enganei. Devo ter confundido as coisas. Mas também com um corpo desses eu não tenho culpa. Tenho que parar de dar tanto poder a um par de nádegas e a um rosto bonito.
- Você está bem? Parece tão abatida?
Esqueci de falar que ela é de São Paulo, meio que metida a Gaúcha.
- Não é nada não. Só estou um pouco triste, deve ser a TPM ou a ressaca de ontem.
- Hm.
Odeio quando ela vem com esse descaso. Isso esclarece tudo. É hora de virar a página...
- Sabe Érica – Paola interrompeu minha linha de raciocínio. Estranha essa voz que ela está usando, tão grave – Acho que as coisas não estão mais como eram antes... É melhor acabar logo com tudo de uma vez... Não que seja sua culpa, é uma coisa mais interna, sabe?
Geminiana cretina! Ontem mesmo tava toda meiga pra cima de mim, agora vem com esse papinho de culpa.
- Foi bom enquanto durou, mas agora é hora da gente seguir nossos caminhos...
Se bem que assim ela me polpa muito trabalho. Eu já ia terminar com ela mesmo.
- Fala alguma coisa.
Mas vou sentir tanta falta desse corpinho... Ai esse cabelo repicado!
Que merda.
- Concordo. Foi bom enquanto durou. Se sentir saudades me liga, viu gata?
- Obrigada. Essa sua calma é uma das coisas que mais gosto em você Érica.
Não se trata de calma, é tudo uma questão de lógica, amor.
- Que nada. Somos adultas afinal.
- Então eu vou indo.
Paola se aproximou e me deu um beijo de despedida. Vou sentir falta desses lábios...
- Tchau.
E saiu pela porta. A maldita calça de brim se foi. E eu pensando que encontraria nas mulheres alguma sensibilidade!
Fazer o quê. Aonde foi parar o meu maldito isqueiro?
Só o cigarro me é fiel.