Mostrando postagens com marcador Micro histórias ou fragmentos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Micro histórias ou fragmentos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Contos do Espelho das Graças


A estranha, parte doze


Faz cinco graus em Porto Alegre, venha começar o seu dia aqui com a gente!...” não sei como esses radialistas conseguem essa disposição assim cedo - e com esse frio! – de qualquer modo eu não consegui pregar os olhos a noite inteira. Fico revendo o encontro que tive com minha mãe no restaurante anteontem. Parece até que de alguma forma meu cérebro funcionou como um gravador, de modo que pode repetir tudo o que ela disse a qualquer hora.

Não vou pra aula hoje, ainda posso faltar mais de três dias nessa cadeira. Mesmo que eu me prestasse a sair de casa duvido que desse jeito eu vá prestar pra alguma coisa... O máximo que pode acontecer é perguntarem se estou bem (provavelmente achando que uso drogas pesadas), na melhor das hipóteses eu esbarraria em Érica em alguma esquina, nós iríamos para algum café, faríamos as pazes e então eu a traria pra cá. Claro, vai sonhando Paola, se eu fosse você adotaria logo um gato. Que horas serão? Cinco pras seis? Aiai.


“Filha, você precisa tomar um rumo na sua vida. Eu não estarei aqui para sempre.... Na verdade é sobre isso que eu vim falar com você hoje” NÃOOO, não quero lembrar disso de novo cérebro! Me deixa em paz! Chega, tenho que fazer alguma coisa ou vou enlouquecer. Que seja, vou trocar de roupa e dar uma volta na Redenção – só espero não ser atacada por algum maluco... Pentear o cabelo: feito, escovar os dentes: feito, colocar qualquer roupa confortável: foda-se estou pronta.


Sorte que o meu apartamento não fica longe do parque, mesmo estando de óculos escuros não devo estar caminhando de uma forma lá muito convencional. Parece até que estou fugindo de alguém... De mim talvez. Nem parei pra pensar que a rua é meio deserta as seis e dez da manhã. Duvido que alguma coisa esteja aberta também! Sinaleiras, quem precisa de vocês à uma hora dessas, eu vou é correr. Arrg, esse chão ta tão barrento... vou caminhar ali pro centro aonde tem concreto.


Incrível como tem gente aqui nessa hora, não são muitas pessoas na verdade, mas eu esperava menos. Esses corredores são mesmo uns viciados. Olha lá, tem alguém sentado na beira da lagoa dos pedalinhos... Parece tão feliz quanto eu. Vou passar mais perto... De longe não deu pra perceber, mas é uma mulher (e é bonita a moça) acho que vou me sentar ali perto. Arg, essa grama ta molhada e esse lugar ta muito frio! Esfregar as mãos não ta mais dando muito certo.. Gente, como ela é parecida com a Érica... Não fosse essa expressão tão diferente, esses óculos retangulares, esse estilo de roupa diferente e o cabelo curto eu diria que é ela sim.


- Posso ajudar? - Antes que eu pudesse desfazer a minha cara de total assombro percebi que ela estava olhando para mim e até a voz era igual, mas o tom é tão diferente! - Hã... Tu ta olhando pra mim? – ela virou-se lentamente para olhar para os lados.


- S-Sim........ – Ótimo, agora só tenho que parecer menos louca – Desculpa, é que você é muito parecida com... Uma amiga minha. E eu não dormi essa noite também.


- Eu também não. As lembranças da minha mãe no final de sua vida me tiram o sono... Falei algo de errado?


- N-não! É que... Comigo foi a mesma coisa. Eu e minha mãe não nos damos muito bem sabe? E quando eu me mudei pra cá ficamos mais distantes do que nunca. – não devia estar me abrindo assim com uma estranha, mas ela é tão igual a Érica que me sinto quase íntima dessa moça.. – Nessa última quarta nós almoçamos juntas. Ele me disse que está muito doente... Está com câncer.


- Sinto muito. Nunca é fácil.


Merda, não queria chorar assim na rua, com essa estranha misteriosa... Merda! “Eu começarei o tratamento na semana que vem. Não sei se vou conseg...” as lágrimas de minha mãe agora pareciam se materializar para fora de do meu  próprio rosto, como se as dimensões se juntassem e o passado tentasse voltar para o presente. Um barulho de lápis me distraiu lápis raspando o papel.

- Pra você.


Peguei o desenho feito as pressas da pseudo Érica, era uma princesa na janela de uma grande torre que deveria pertencer a um castelo. A princesa chorava ao olhar pelo horizonte.


- Essa é você. – Ela se levantou lentamente e estendeu a mão para me ajudar a levantar, eu aceitei. Ela me abraçou como se eu fosse muito menor, apesar de eu ser só um pouco mais baixa. Não aguentei e voltei a chorar. – Por favor, entenda, não tenha medo da liberdade. Isso é um processo que pode doer..


- O-obrig-ada... – Não tinha reparado, mas os olhos dela também são verdes como os de Érica.  Não pode ser! – qual o seu nome?


- Assinei o desenho. Cuide-se.


Fiquei olhando ela se afastar devagar. Isso é um sonho? Virei o desenho para ver a assinatura “LH”. É alguma piada?

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Contos do Espelho das Graças

No último cigarro, parte onze:

8:00 AM, ainda é cedo, vou dormir mais um pouco... 9:00 AM, só mais cinco minutos. (...) 11:00 AM, que barulho é esse?! Ah, o interfone... Quem poderia ser? Ai meu dedinho! Que merda esse rodapé da cama, só serve pra bater o pé! Se ele não sustentasse o meu colchão de uma maneira tão eficiente juro que pegava uma serra e transformava tudo em lenha!

- Sim?

Minha voz deve ter saído com um aspecto horrível, a pessoa nem ta respondendo.

- Quem fala?

Eu podia estar dormindo agora, então desembucha!

- Hã... Oi Érica! Aqui é a Alice... Não sei se tu ainda se lembra de mim.

- Alice... Tu não deveria estar na aula agora?

Meu sono me impede de ser educada.

- Eu poderia dizer o mesmo. Mas não. Hoje é a minha “folga” na semana. Posso entrar?

Entrar? Droga, como que ta o meu cabelo? Eu to de calça? Ah, to sim.

- Entra aí.

Eu tenho o tempo dela subir três lances de escada pra dar uma ajeitada aqui. Puts, acho que não vai dar tempo, isso aqui ta um caos! Vou escovar os dentes.

Beee!

Saco, ela já ta na porta! Ok, pelo menos deu pra dar uma escova. Nossa, minha cara ta toda amassada. Vou abrir essa bendita porta marrom.

- Oi Érica! Há quanto tempo... Tu corto o cabelo?

Nossa, a Alice não mudou nada! Parece até que ta com a mesma roupa de quando a gente se viu pela ultima vez. Só os óculos... Esses são redondos e não quadrados, acho que combinou mais com ela.

- Sim e não. Como que tu ta? – Me aproximei e abracei ela, deixando sem reação. Pelo visto eu ainda mexo com ela.

- Bem né. Entediada, mas saudável! Depois que te deu essa Loca aquele curso quase que perdeu a graça. Mas como assim “sim e não”, ele ta bem mais curto do que eu lembrava!

-Bom. É que eu cortei ele, mas já faz um tempo... Na verdade eu cortei em casa na semana passada...

Alice ficou de boca aberta.

- Cruzes! E tu teve coragem? Teu cabelo era tão lindo antes!

- Muito obrigada pelo “antes”, acho que fiz cagada mesmo.

- Ah... Mas ele ta legal agora também. Só da um choque pra quem não ta acostumada.

O primeiro silencio constrangedor em que ela ficou me olhando com aqueles olhos brilhantes se deu início e agora me pergunto se devo perguntar o porque da visita dela ou não. Não sei se quero saber.

- Então... Quer comer alguma coisa? Tem pão e café...

- Na verdade eu vim pensando em te convidar pra almoçar. Precisamos colocar a conversa em dia!

Conversa...

- Aonde seria?

Percebi que tinha uma carteira de cigarro com exatamente O ultimo deles me olhando de cima do balcão da cozinha. Que tentação!

- Isso tu vai ter que descobrir. Não to afim de ficar explicando! Agora tira esse olho de cima daquele cigarro!

Olha! Ta ficando imponente a moça! Pena que agora não seja o momento certo pra isso. Ai Alice. Hoje eu realmente não to com ânimo pra sair.

- Aonde tu quer ir?

- Ah, ta bom! Pode ser em qualquer um aqui perto. Acho que vi um vegetariano bastante promissor pelas redondezas...

Vegetariano? Não chego a ser vegetariana, mas adoro comida sem carne. Se o preço não for muito indigesto até que seria uma boa. Mas o que eu não sei é o que ela veio fazer aqui... Faz tempo que eu não vejo essa guria, mas eu conheço essa cara! Aí tem.

- E então?

- Aiai, que horas são?

- Hora de se mexer! - Lá vai ela entrando pela minha porta toda animadinha – Vamos lá Érica, o que tu tem que fazer pra ficar pronta?

É, acho que não tenho escapatória.

- Espera aí na sala. Daqui a pouco eu to pronta.

- Ta bom. - Voz de triunfo, merda, ela soube exatamente como me convencer. Estudante de psicologia é foda.

Me arrumei rapidamente, nem tinha muito o que fazer com o cabelo, só coloquei um creme pra deixar ele um pouco espetado. O que me incomoda nela são esses jogos psicológicos. Se gosta de mim fala logo guria! Do jeito que as coisas vão eu até poderia te dar uma chance. Só não sei se me arrependeria ou não.

- Já ta pronta?

O que ta fazendo aí na minha estante? Sabia que tava me estudando. Tá, ta bom, eu devo estar exagerando.

- To.

Peguei o gracioso cigarro em cima da mesa e acendi.

- Vamos?

-Vamos. - Olhou torto pra ele como eu sabia que faria.

O restaurante era realmente perto, em menos de dez minutos já estávamos lá. Conheço algumas pessoas que definiriam o lugar como uma espécie de viveiro de “ecochatos”, ou simplesmente como um lugar clean. Até que é agradável... O branco das paredes se quebra com os efeitos da iluminação em tons de amarelo no teto e verde em alguns pontos perto do chão. Tem também esses quadros de frutas e paisagens que por algum motivo os restaurantes adoram. Alice escolheu uma mesa perto da parede, uma pequena pra duas pessoas, e eu a segui.

- Se eu te conheço, tu deve ta se perguntando por que eu te chamei aqui né?

Ela ta usando esse tom de brincadeira, mas eu sinto a cautela na voz dela. Aonde ta querendo chegar?

- É, acho que tu acertou.

-Não se pode esconder nada para os que tem o dom da psicologia! – riu – Bom. Esses dias eu encontrei lá no noss... No prédio da Psicologia o Julho. E me lembrei na hora que ele tinha feito aquelas “consultas” contigo.

Pressinto merda vindo por aí.

- Então decidi falar com ele pra ver se tinha contato com uma certa criatura que sumiu do mapa, não é Érica? Então ele me disse que não te via há tempo também, mas que tu ajudou ele num dia lá na Redenção. Daí eu decidi te visitar pra ver como tu tava...

- Hm.

- É... Vamos nos servir?

- Vamos.

Comi muito, comida vegetariana é tudo de bom! Pena que a comida não desceu tão bem quanto poderia, porque eu sei que ela não terminou o assunto. Ela vai concluir uma análise a qualquer momento.

- Eai?

- Eai o que?

- Gostou da comida?

O volume atual do meu estômago responderia isso por mim.

- Sim, bastante.

Um minuto de silêncio.

- Então Érica – Alice ajeitou os óculos arredondados sem tirar os olhos dos meus, lá vem a conclusão – O que eu queria realmente quando te convidei para vir aqui era te perguntar uma coisa... Não, na verdade fazer uma proposta.

As mãos dela estão em forma de delta com o cume virado para cima sobre a mesa, Alice sabe exatamente o que está fazendo. Que inveja.

- Érica Costa Castro, você aceitaria a mim como sua analista?

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Contos do espelho das graças

A garota do espelho, parte dez:

Se não me engano foi aqui, no prédio de psicologia ao lado do planetário. Ela era só uma aluna, mas eu queria falar com alguém. Alguém que quisesse me ouvir não apenas pelo dinheiro – até porque eu não poderia pagar.

Quero agradecer a ela por tudo. Ouviu meus desabafos e me salvou de uma surra. Preciso que ela saiba como me fez bem antes da minha partida. Eu, que sei como é encarar o preconceito das pessoas de frente, imagino os problemas e desafios que ela deve estar passando. Entrei pelo portão principal, o guarda na guarita nem me notou. Fui andando até onde eu sabia ser a recepção do curso. Não sabia como iria encontrar Érica no meio desse prédio, mas estava contando com a sorte e seguindo a minha intuição. Eu podia sentir. Era ali que eu deveria estar agora.

Fui em direção a uma funcionária – não parecia muito feliz – reconheci ela da outra vez em que estive ali.

- Pois não? – Me recebeu sem ao menos ver o meu rosto.

- Bom, como explicar... Eu vim encontrar uma aluna do curso de psicologia, Érica o nome dela, sabe como posso achá-la?

- Olha meu amigo, não tenho muito o que fazer por ti. Tu consegue imaginar quantas Éricas podem estar nesse prédio nesse momento? Sugiro que use a internet, vocês jovens são bons nisso afinal.

Internet... Se eu tivesse uma.

- Está bem. Obrigado, tchau.

Que coisa. Parece que a minha intuição estava errada afinal. Foi muita ingenuidade minha achar que vindo aqui eu a encontraria facilmente.

- Ei! Tu aí! Espera!

Uma voz feminina me chamou a atenção. Pelo visto a minha entrada aqui não deve ser permitida. Ela veio correndo, não me lembro dela. Cabelo castanho escuro, médio e preso, com muitas mechas soltas. Olhos também castanhos, porém  brilhantes. Óculos arredondados, um pouco fora de moda, Jeans levemente boca de sino, um all star verde surrado e uma camiseta preta desbotada dos Beatles que parecia combinar com a sua pele levemente bronzeada.

- Eu me lembro de ti! Fez consulta com a Érica no início do ano! Como que tu ta?

Aproximou-se e me cumprimentou com um beijo na bochecha. Cheirava a café.

- Bem. Na verdade vim procurá-la pra agradecer a ajuda...

- hm.. Então pelo jeito tu também não tem mais contato com ela não é? Que droga, achei que poderia ter alguma notícia.

- Como?

- Vem,vamos tomar um café, que eu te conto a história. Nossa esse curso sem a Érica tem sito bem mais maçante. Um tédio pra ser mais exata!...

Seguimos em direção ao que deveria ser a cafeteria do lugar. Ela falava comigo como se fossemos amigos. Parecia ser uma pessoa legal. Mas eu estava intrigado. Porque Érica não vinha mais pra faculdade? Se ela não a via há tanto tempo, essa não deveria ser a namorada dela.

- Foi no final de Abril, se não me engano – ela chegou ao ponto mor da história quando já estávamos sentados em umas das mesinhas quadradas e esperando pelos dois capuccinos - Érica havia começado a se comportar de uma maneira muito estranha... Começou a perder o equilíbrio. Como você sabe isso é uma coisa que não é característico dela. Um dia quando estávamos em uma aula direcionada aos traumas de infância ela simplesmente ficou pálida, saiu da sala logo em seguida. Cara. Ele era forte, aguentava qualquer tema numa boa! Ninguém entendeu essa reação dela... Todos deduzimos que ela tivesse algum histórico na família e nenhum psicólogo tem permissão de lidar com os problemas em que está envolvido de alguma forma. Não é seguro.

- Tu acha... Que eu tenho alguma coisa a ver com isso?

- ... Sim. Eu juntei as coisas sabe? Ela começou a ficar estranha logo depois de tu ter pedido a ajuda dela. Eu sabia que não era seguro ajudar alguém tão cedo. Mesmo que sejamos alunas esforçadas, ainda somos somente alunas.

- Então ela abandonou o curso?

- Espero sinceramente que não tenha feito isso. Ela tinha talento pra coisa... Acho que ela deve apenas ter trancado. Combina mais com o estilo dela.

Ficamos em silencio por um tempo enquanto a minha gratidão se convertia em culpa.

- Sabe – ela começou meio relutante – Se não for muito particular... Eu queria saber o que você contou pra ela. Eu sei que deve ser uma coisa muito intima! Mas... Eu estou preocupada com ela. Ela já fumava antes... Agora deve estar fumando mais do que nunca.

- Tu deve gostar muito dela. – ela congelou a expressão em uma cara de interesse - Bom. Acho que posso te contar sim... Se me prometer o sigilo absoluto esperado de uma psicóloga, é claro.

- Pode deixar comigo! Sou o sigilo em pessoa.

Apertou a minha mão como um sinal de cumplicidade.

- A propósito. Vamos nos apresentar devidamente! Me chamo Alice, em homenagem ao meu espelho!

- Prazer, me chamo Julho, em homenagem ao mês em que meu pai morreu.

Soltamos as mãos e rimos das nossas desgraças enquanto a garçonete trazia os nossos capuccinos.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Contos do Espelho das Graças

Por outros lados, parte nove

Tento me acalmar pela décima vez. Meu tio ali na sala não pode perceber minha alteração, senão as coisas ainda podem ficar piores... Melhor é me concentrar em outra coisa que não seja a minha vida pessoal problemática, como vimos isso só leva a lágrimas. 

Como eu odeio chorar! Além de tudo meus olhos ficam vermelhos e inchados e, ainda por cima, doendo. É incrível como as pessoas conseguem deixar a minha vida tão complicada. Minha mãe em São Paulo quer me afastar de um “estilo de vida problemático” o que segundo ela me ajudaria nessa minha “fase confusa”. Que ódio que eu tenho de tudo isso! Quem precisa de terapia são eles.

Não sei como minha mãe tem coragem de defender os homens quando na verdade ela sempre falou mal do meu pai. Como se eu não estivesse estado lá para testemunhar aquele casamento infeliz durante toda aminha criação! Ainda por cima agora que eu tenho a chance de construir a minha própria vida ela fica se metendo. Ou mais precisamente metendo o meu tio. Que inferno.

Mas o que eu tenho pra essa semana mesmo? Hm. Tenho que adiantar esse ensaio pra terça feira, senão aqueles livros que tenho que ler pra sexta vão me matar, quase que literalmente!
-Paola?                

- Sim tio?
- Tu ta bem sobrinha?
- Claro. É só a tensão da faculdade...     
- Ah sim! Que curso tu ta prestando mesmo?
- Letras. Bacharelado, não licenciatura.
- Hm. Ok.  Quarta a tua mãe vai vim te visitar. Ela me disse que quer ver como que tu ta e discutir as tuas perspectivas...
- Ah sim. Claro.

 Meu tio apesar de um tanto bruto percebeu que eu não estava pra conversa e que a minha falta de animo pra discutir a notícia polemica só podia significar uma coisa: Quero ficar sozinha. E assim foi. Ele saiu do quarto e disse que ia pra sua casa.

 A vinda de minha mãe só me trazia uma coisa em mente. Ela com certeza vai me trazer mais perturbação. Que merda. Nem Letras eu queria fazer.  Minha vontade era de cursar Artes Visuais, ou História da Arte que fosse, as duas me parecem ótimas! Mas claro que esses não são cursos dignos pra ela! Melhor é ser professora então, assim como ela... Professora de Matemática. Depois de tanta briga eu ainda acabei cedendo com algumas condições: primeiro eu me mudaria pra uma cidade da minha escolha; segundo: não iria ser professora de matemática; e por fim, não seria professora e sim tradutora. 

Na hora eu não me dei conta, mas caí numa grande cilada. Pois uma a uma das minhas condições não estão sendo respeitadas pelo jeito... E quanto à história de ser tradutora... Eu realmente não sirvo pra isso! Me sinto totalmente fora do rumo apropriado pra mim.

Mas quer saber de uma coisa? Eu já sei o quero fazer. E sei o que quero mudar daqui por diante! Minha vida será minha e vou fazer com que as coisas comecem a dar certo. Entre minha vida acadêmica e eu, entre Érica e eu. Que chegue quarta-feira! Não tenho receio algum de mostrar pra minha mãe quem a filha dela é de verdade!

Contos do Espelho das Graças

Adubo de Érica, parte oito

“Mas da onde vc o conhece?” aiai, mais uma vez essa perguntinha? Mas que droga! Eu já respondi! “Não sei se realmente o conheço, é que ele me lembra um menino que eu conheci na infância” “Então porque vcs tavam conversando?” aaah! “A gente não tava conversando. Eu corri com ele pra fugir de um bando de neonazistas”. E o interrogatório pelo bate papo do computador continuou, mas por mais que eu me empenhasse não conseguia convencer Paola da minha inocência.

Também não era pra menos. Eu mesmo me surpreendo de quão absurda a realidade pode ser às vezes, mas o pior de tudo é que era a pura verdade! Mas que ciúme é aquele afinal? Ciúmes de um homem? Como assim? Isso é muita insegurança. Não pode ser sério.

“Érica, acho que isso é uma coisa importante pra ti, só que você não percebeu ainda... Eu vi o olhar na sua cara! E não era normal... Eu preciso saber o que te afeta tanto assim nessa história” “Escuta Paola, não era tu que queria terminar comigo a um tempo atrás? Porque todo esse interesse pela minha vida sentimental de repente, em? Não estou te entendendo.”

Ok. Se arrependimento matasse eu já estaria servindo de adubo pra alguma secóia na América do Norte agora. Como eu queria que esses programinhas tivessem a opção de “apagar”. Seria salvadora essa opção! Que merda, ela não ta respondendo. Ela não deve saber a resposta! Aah que droga. O melhor a fazer depois de uma cagada dessas é deixar a coisa esfriar. Há não ser que isso tenha magoado muito Paola... Mas o que eu to pensando? Ela nem deve ter levado isso a sério! Nosso relacionamento sequer chega a ser oficial. Será que a errada sou eu? Talvez eu devesse ter tomado a iniciativa desde o início... Aonde que ta o meu isqueiro? Mas que merda!

“Érica..” cancelei minha busca por um estante na expectativa do que estava por vir “Não quero pressionar você a nada. Acho que precisamos de um tempo pra colocar a cabeça em dia. E vou tentar fazer isso dar certo dessa vez.”

Paola parece estar offline. As mensagens serão entregues quando esse contato entrar.

Ah, então é aí que tu tava todo esse tempo? Seu danadinho! Vem pra cá. Ascende esse cigarro pra mim, ok? Hoje teremos uma longa noite pra pensar, meu velho amigo. Como será a vida de um adubo?

segunda-feira, 7 de março de 2011

Contos do espelho das graças

 Nos labirintos da mente, parte sete:

Andar. Parar. Seguir. Virar. Esquerda, direita. Desviar do buraco na calçada. Cheguei. Dizem que não existe lugar no mundo melhor do que a nossa casa, mas eu tenho minhas dúvidas. Se esse é o melhor lugar do mundo, então porque é aqui que tenho as minhas piores crises de depressão?

Checo a secretária eletrônica. Uma mensagem. “Deje su mensaje después del tono” “Oi Julho. Queria te ver. Queria esclarecer as coisas na verdade... Me liga tá? Tchau.” Fim da mensagem. A voz de Leandro era indecisa, não sabia se queria ser dura ou sentimental. Eu ligarei... Mas não agora.

Meu estomago ronca, clamando por comida. Fui até a geladeira para atender as preces de minhas entranhas. Não tinha muita coisa, nada que eu quisesse comer na verdade. Assim como é com as pessoas... Pois é. Essa frase ficou meio vulgar, mas é a pura verdade. Mulheres não faltam a minha volta, no entanto, nenhuma me chama atenção.

Lembro daquela que chamou pelo meu nome no parque a duas semanas atrás. Sua voz era nostálgica aos meus ouvidos, mas isso eu não pude entender... Aquele rosto era familiar, mas não consigo lembrar da onde o conheço. Os olhos verdes e profundos dela era o que mais me intrigava, eu tinha aquela certeza irritante de que os conhecia; como? Tente se lembrar Julho! Estatura mediana, cabelos na altura dos ombros, negros, extremamente negros. A pele contrastava com esse tom forte, era branca, muito branca. Com certeza deveria se cuidar com o sol. Mesmo assim. Não me lembro. Ela não quis revelar seu nome, apenas adivinhou o meu por “coincidência”.

De qualquer forma devo ser grato a ela. Pelo visto o perigo me ronda até onde eu o ignoro. Abro a última gaveta da geladeira: dois cachos de uva. No primeiro os grãos eram saudáveis e graúdos, porém em pouca quantidade. Já o segundo era realmente grande, mas muitos grãos estavam um tanto murchos ou inválidos. Qual deles pegar?

Escolhi o segundo, como se assim estivesse escolhendo meu destino e reconhecendo o meu passado. Um nome me veio em mente: Érica?   

domingo, 6 de março de 2011

Contos do Espelho das Graças

Do lado de fora, parte seis:

- Quantos anos tu tem?

E você com isso. Ai ai, as pessoas hoje em dia não tem mais educação. Lá de onde eu vim as coisas são diferentes... Será que são mesmo?
- Quantos você acha?
- Eu não sei. Talvez, dezenove?
Tsc. Mais um metidinho a galã tentando me cantar.
- Sei não. Acho que a resposta vai ficar na sua imaginação mesmo.

Não suporto esses vizinhos tarados que tenho aqui no Sul. Ouvi dizer lá no Rio que aqui era terra de gente culta... Deve ser folclore. Nunca vi povinho mais nervoso! Perdem a cabeça por qualquer coisa e, quando se vê, já tão atacando um pedaço de boi. Tristeza que me dá isso... Finalmente achei essas benditas chaves! Minha bolsa devia se chamar buraco negro. Pelo menos dessa vez a fechadura colaborou. Mas que barulho é esse? Minha televisão ficou ligada? Não!...

- Bom dia sobrinha! Fiquei sabendo que tu tava aqui em Porto! Tua mãe me ligo ontem... Há quanto tempo tu ta aqui na capital?
Merda...
- Oi tio Thiago! Acho que já faz uns três meses... Não liguei pra você porque estava ocupada com toda aquela coisa da transferência.
- Ah sim, entendo! – Meu tio sempre querendo me deixar surda...
- Como conseguiu entrar?
- Ah! Eu conheço o sindico! É um velho amigo meu! Mostrei uma foto tua pequena e ele abriu pra mim...

Mas que maravilha! Então se algum tarado mostrar minha foto bebê ele entra no meu apartamento? Rum, não adianta. Até hoje a Érica foi uma das poucas pessoas que conheci que faz jus ao que dizem sobre o gaúcho ser mais culto. Ela é calma, educada e controlada! Incrível como parece que ela nunca se estressa com nada! Sinto como se pudesse passar o resto da minha vida com ela. Por isso fico com medo, me afasto... Não sei como reagiria a um compromisso desses.

Marquei um encontro com ela lá na Redenção. É incrível. Ela nem reclamou do frio horrível que faz por aqui... A uma hora dessas já deve estar lá me esperando. Só vou me livrar do tio Thiago e vou pra lá... Mas por falar nisso, o que meu tio faz aqui?

-Então tio, o que te traz ao meu humilde novo lar?

- Gostei do sotaque em! Ta aprendendo...

Ele esta tentando me despistar? Eu conheço você mocinho! O que anda escondendo?

-Eu me esforço né... – ri – Aconteceu alguma coisa?

- Nada de mais! É que vou me mudar pro apartamento de cima.

O QUÊ??

 -Sério? Nossa... Que bom. Mas por quê? – Minha voz inevitavelmente se tornou mais agressiva ao longo da frase.  

- Bom, é meio que um acordo entre eu e a tua mãe. Ela anda meio preocupada com o teu comportamento ultimamente e achou que seria bom ter eu aqui por perto pra te dar uma força... Te guiar pela cidade. E também... Eu ando tendo uns problemas de saúde sabe sobrinha, e é sempre bom ter alguém da família por perto quando isso acontece.

- Problemas? Quais?

- Coisas do coração. Colesterol... Essas coisas.

P#!&8!!!!

- Nossa tio! Você deveria ir ao médico já!

- E vou! Na verdade vim aqui também pra te pedir pra me acompanhar...

C#!&8!!!

- Ai tio... É que eu tinha um compromisso marcado pra tarde.

- É que é importante que tu esteja junto! O médico disse que é bom ter alguém ciente do problema... Pra saber o que fazer, sabe?

- Ah...

Que droga! Pensei que vindo pra Porto Alegre teria mais liberdade! Mas é claro que a dona Lurdes não ia me deixar em paz. Nunca devia ter dito pra ela com que tipo de pessoa eu gosto de namorar. Porque não me deixa viver, em sua Louca!

- Ok. Se é importante desse jeito, eu posso ir. Só me dá um tempinho pra avisar a minha amiga...

-Claro!

Vai ter que ser por mensagem. Se eu ligar pra ela meu tio percebe de cara que tipo de amiga ela é... Só pela minha voz eu adivinharia. Mas o que eu falo? Tadinha da Érica. Já deve ta lá naquele frio... Me esperando!
“DESCULPAA!! NÃO FOI MINHA CULP..” Não, assim eu assusto ela. “Minha família ataca de novo! Eu queria muito te ver mas..” Não. Muito cansativo. O dia dela já não vai ser muito bom, a notícia não pode ser pesada.
“Surgiu um imprevisto, desculpa amor, mas hj n vou poder te encontrar :*” Perfeito! Enviar... Só espero que ela não fique mal comigo.

- Pronto. Que horas é a sua consulta?

- Daqui meia hora no HCPA.

O silencio imperou sobre nós. Tanto eu quanto meu tio queríamos manter uma boa sintonia, mas estava ficando extremamente impossível ser agradável... Demoramos cerca de quinze minutos até entrar no carro do meu tio e colocá-lo em movimento. O transito estava meio congestionado e ficamos uns dois minutos parados ao lado da redenção. Fiquei imaginando se Érica ainda estava lá...

- Será que você não vai se atrasar tio?

- Não. Na verdade a consulta é daqui uns quarenta e cinco minutos, mas é sempre bom chegar um tempo antes!

Que bom saber disso. Agora sim estou em estado de TPM! Melhor olhar pra rua pra ver se assim me distraio... Realmente tem uma boa sena pra me distrair.Uma moça de cabelos negros e pele muito branca corria desesperada segurando a mão daquele que deve ser seu namorado. Muito suspeito esse carinha em... melhor ela se cuidar com os amigos. Estranho, essa roupa dela é tão familiar... Peraí! Aquela é a Érica! Meu deus deve ter acontecido alguma coisa terrível pra ela estar tão pálida... E. Porque ela ta de mão dada com aquele cara? Não entendi... Ela não está normal. Esse olhar não é normal.  
  
Érica, você queria terminar comigo hoje?


sábado, 5 de fevereiro de 2011

Contos do Espelho das Graças


Gorilas no parque, parte cinco

Nem acredito.

Não acredito que em pleno inverno eu estou aqui na Redenção. Sabe em que mês estamos? Estamos em Julho! É simplesmente o mês em que o inverno começa. Só uma coisa me traria aqui num dia cinza e frio como esse. Ou melhor, uma pessoa. Que por falar nisso ainda não me deu notícias... Aonde anda essa Paola afinal?

Checo o meu celular, que por uma triste coincidência continha uma mensagem de Paola. Gelei. As coisas realmente tem andado meio estranhas. É sempre ela que me procura, quando eu tento alguma coisa não recebo retorno. Mas ela não me daria um cachorro assim na cara dura...

Abri a mensagem. “Surgiu um imprevisto, desculpa amor, mas hj n vou poder te encontrar :*”

Óóó ela me chamou de amor! Que amor. Mas como assim um imprevisto!? Foi idéia dela vir aqui hoje. Arr, essa guria me mata!

Comecei a vagar pelo parque para ver se organizava minha mente. Não tinha muita gente aqui esta tarde. Analisei o ambiente a minha volta. Muitos casais heteros - muitos desperdícios nas mãos de brutões – alguns casos suspeitos e de vez em quando uma que outra bem assumida.

Não gosto de me analisar, tenho medo de minhas conclusões. Mas acho que se me visse na rua conseguiria adivinhar de qual lado do muro estou, afinal nunca tentei me esconder. Mas também nunca fiz questão de me mostrar ao mundo por livre e espontânea vontade...

Um uivo alto e agudo de cachorro me chamou a atenção, causado por alguma surra com certeza. Olhei mais adiante e vi um pequeno grupo de homens bombados e brancos de cabeça raspada. Eram três. Dois com altura mediana e um consideravelmente alto. O maior tinha uma tatuagem nazista na parte superior do braço.

Era só o que me faltava! Mais um daqueles cabeças de rolon com regatas e camisetas justas – para usar uma roupa assim em pleno inverno eles não podem ser normais, talvez estejam sobre efeito de alguma droga. Alguém devia prendê-los antes que façam alguma merda! O que certamente farão. Só espero que não encontrem nenhuma vítima nesse lugar, detestaria ver algum daqueles homens afeminados sendo violentados numa tarde de inverno como esta, onde tudo o que eu queria era estar dormindo.

Olhei em volta. Estávamos perto do lago dos pedalinhos, e tudo o que eu não queria ver estava lá. Um homem jovem e delicado, cabelo bem loiro e escovado. Roupas justas, franja pro lado, óculos de grau retangulares. Vítima encontrada. E agora José?

Para minha mais sincera tristeza o grupo de gorilas albinos na minha frente o localizou quase que ao mesmo tempo. Deram algumas risadas. Se poram a andar na direção do alvo. O frio invadiu minhas roupas e penetrou minha alma. Tentei em vão não rever minhas memórias que passavam como um filme na minha cabeça. Um menino loiro, uma garagem, um ferro de passar roupa. Precisava fazer ele parar. Precisava que alguém parasse. Não sabia o que fazer. Que dia é hoje? Em que mês estou?

- Julho!! – gritei a primeira coisa que consegui pronunciar e corri ao encontro daquele estranho em apuros. Por coincidência ele despertou de seus pensamentos e olhou em minha direção.

Ultrapassei com a maior velocidade que pude aqueles três indivíduos - que pararam para entender o que se passava – eu não sabia o que estava fazendo e também não sabia o que faria, mas meu desespero me guiava. Joguei-me nos braços dele como se fossemos íntimos, não tive estomago para fazer algo além de abraçá-lo forte. – Vamos! Estamos atrasados!

Puxei ele com a maior força que tive. Não foi difícil conduzi-lo, ele parecia leve e frágil apesar de ser quase uma cabeça maior que eu. Não me disse nenhuma palavra e nem ofereceu qualquer resistência. Como se de alguma forma ele esperasse por isso.

Mais um maluco na minha vida, só eu mesmo pra me meter nessas encrencas!

Arrastei o infeliz para a beira do parque, onde se viam os carros e o asfalto. E agora gênio? Quis dar uma de mulher maravilha, muito bem! Agora cuida do mocinho.
- Então. Tu tá bem?

- Claro. Correr não me machuca. – a voz dele era firme e grave. Em nada lembrava a sua aparência.

- Arrã. Bom. Tome mais cuidado por aí está bem? Nem todos tem a mente aberta hoje em dia.

- Como assim?

- Ah. Neonazistas, sabe? Tinha três indo na tua direção.

- Nossa. Acho que devo te agradecer então.

- Não precisa. Vou pra casa ver se consigo falar com a minha namorada. – Paola e eu não éramos
exatamente compromissadas, mas era bom deixar as coisas claras afinal.

- Ótimo. Boa sorte então.

- Certo... Vou indo então... (fui me afastando tentando ser natural)

- Pode me responder uma coisa?

- Hm... Posso.

- Como sabia o meu nome?

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Contos do espelho das graças


LH, parte quatro

Meu nome é Julho.

Com LH mesmo: J-U-L-H-O. Até hoje todos quando vêem meu nome escrito em algum lugar comentam “Olha, escreveram o teu nome errado”. E então eu começo a recitar aquela explicação elaborada e decorada faz anos.

“Não está errado, é assim mesmo que se escreve. Em homenagem ao mês de Julho, que não foi quando eu nasci, mas foi quando meu pai morreu”. Nessas horas alguns ainda demonstram algum tipo de pesar – mais por educação do que por comoção – e outros expressam todo o seu sentimento com um simples “hm”.

 Sou órfão  de pai. Já me acostumei com isso. Às vezes penso se não foi melhor assim; segundo minha mãe – vítima do câncer já faz três anos – ele era uma pessoa muito conservadora e teria me renegado. Sendo assim, mesmo que ele não tivesse morrido em um acidente de carro no meu quinto mês de gestação, hoje eu ainda não teria um pai.

Não guardo mágoas de minha mãe. Mesmo que no dia em que me assumi gay ela tenha me expulsado de 
casa. Verdade é que eu a amo muito e que no fim fizemos às pazes.

Pena que tenha sido dentro de um quarto de hospital...

Normalmente eu sei lidar com a saudade, mas quando a solidão me sufoca eu venho pra cá, na Redenção. Fico sentado na beira do lago, admirando as pessoas andarem nos pedalinhos em forma de cisne. Afinal foi minha mãe que me apresentou este local. 

Aqui eu me desligo, ignoro qualquer perigo que possa me rodear. As pessoas, o preconceito, a solidão; nada disso me toca, nada disso existe pra mim agora. 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Contos do espelho das graças

Pelada no inverno, parte três:


Noite de inverno.

Por acaso sabe o que significa uma maldita noite de inverno?

Significa que eu terei de fazer uma escolha “simples” se quiser sair pro Pub hoje.


Opção um: Usar a roupa que eu quero, ficar bonita e morrer de frio.

Opção dois: Usar uma roupa quente que me deixe um balão.


Quer saber? Pro inferno tudo isso! Vou dormir pelada e ver algum drama bem pesado. Deixe-me ver o que tenho em DVD... Porra, nenhum drama que eu queira rever.


Pena que Requiem for a Dream era da Paola.


Dane-se, vou ver esse com a Kristien Stewart mesmo, assim pelo menos me agrada os olhos.


(TRRRRRRRIIIIIIIIIING!)


Caralho! Quem é o filho da puta que veio me ligar justo agora? Se eu descobrir quem é juro que.


- Alô! – Atendi com o maior desprezo que pude. Tive um choque.

- Oi Érica! Aqui é a Paola. Como você está? Senti tanta saudade sua...


Ah! Sabia que ia sentir uma saudade!


- Ainda viva. Como vai a faculdade? Fiquei sabendo do teu problema com a transferência de curso.

- Ah, deu uns perrengues, mas se Deus quiser vai dar tudo certo. Tem algum programa pra noite?


E agora? Entrego o jogo dizendo que ia ficar em casa na maior merda? “Ah, ia ver uns filmes pra ver se saio da fossa que tu me atiro!”


- Nada em mente.

- Então vamos lá num Pub na cidade baixa, umas amigas minhas falaram super bem, que se acha?


Dúvida.


- Érica?


Ah, se a montanha veio até mim, então que seus frutos sejam bem aproveitados.


- Ta certo então. Só vou trocar de roupa e já vou. Aonde te encontro?

- Hm... Daqui uma meia hora eu passo aí no seu prédio e aí nós duas vamos juntas.

- Ok.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Contos do espelho das graças

 Julho, parte dois:

Sol. Seus raios de luz sempre me agradaram. Pena que minha pele não compartilhe da minha opinião. Olho o relógio. Meio dia e meia, hora do intervalo. Radiação alta.

Pego o filtro solar e deixo ele escorrer lentamente para minha palma; lembro de Leandro. Porque ele não confia em mim? Nunca dei um motivo sequer para tanta desconfiança, tanto ciúmes.
Noite passada brigamos. Ele foi pro seu apartamento, eu fiquei no motel. Pensando sobre tudo; na vida e na morte.

-Você está bem Julho?

Adriana me encarava. Perguntei-me o que ela via quando olhava para mim. Um derrotado? Foi então que percebi minha mão cheia de protetor, que continuaria observando não fosse a interrupção.

- Ah. Não é nada. Só ando um pouco distraído mesmo.
- Também. Com essa firma que a gente trabalha qualquer um sai afetado! Telemarketing não é pra qualquer um.
- Concordo plenamente. Não pretendo ficar por muito tempo. – Comecei a passar o creme espesso e branco pelos braços. Os pelos sempre um incômodo.
- Isso é o que todos dizem meu filho.

De repente comecei a analisar Adriana. Eu no meu cubículo, ela no dela. Devia ser feliz. Cabelo loiro, liso e comprido. Olhos claros e pele bronzeada. Gosta de pagode e filmes de comédia. Heterossexual: Perfeitamente normal.
Perguntei-me como deveria me sentir perto dela. Excitado? Um animal predador?
Reparei em suas unhas vermelhas, pintadas ontem, já ruídas e descascadas. Qual seriam os problemas em sua vida para deixá-la assim, tão tensa? Pobre alma. Para todos não passa de um objeto descartável.

Peguei uma folha de oficio e desenhei um campo florido cheio de girassóis. Entre eles desenhei um botão de rosa.

- Toma. Essa é você.
- Ai! Obrigada Julho! Adoro flores.

Colocou o desenho sobre a mesa e se voltou para o seu Iphone. Um dia ela entenderia, mas não brevemente.

Quando cheguei em casa já eram quase 19h. Analisei minha mente, refletida no caos que era aquele JK.

Queria mudança.

Comecei a arrumar a bagunça, colocar cada livro em seu lugar e cada roupa para lavar. Fui checar a secretária eletrônica: nenhuma mensagem.

O que seria de mim essa noite? Se ficar em casa será pior. Melhor sair, encher a cara e anestesiar minha dor. Quem sabe não encontro alguém que me mereça.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Contos do espelho das graças

(Aqui é a Stone. Sei que o combinado era a madame postar a história dela primeiro, mas azar o dela. A minha foi escrita primeiro. E além do mais é tudo uma questão de interpretação; essa história não é da madame afinal.

Mas que droga. Vou falar do que importa. Imagino que alguns vão ficar meio chocados quando começarem a ler esse conto. Porque fala de lésbicas. Á essas pessoas eu digo: cresçam caramba. Ler essa história não se difere nem um pouco de quando tu lê a história do patinho feio; é tudo ficção e o que interessa é o psicológico dos personagens.

Só mais um aviso: Esse conto terá continuação e parte da história que será montada em pequenos contos a Madame vai participar. É isso, agora não vou mais encher o saco. Podem ler.)


Érica, parte um:

Hoje faz um mês que estamos juntas.

Eu a encaro enquanto ela põe a mesma maldita calça de brim que ela usa todos os sábados quando saímos. Nenhuma palavra. Ela se esqueceu.

Pensei que dessa vez seria diferente, mas me enganei. Devo ter confundido as coisas. Mas também com um corpo desses eu não tenho culpa. Tenho que parar de dar tanto poder a um par de nádegas e a um rosto bonito.


- Você está bem? Parece tão abatida?


Esqueci de falar que ela é de São Paulo, meio que metida a Gaúcha.


- Não é nada não. Só estou um pouco triste, deve ser a TPM ou a ressaca de ontem.

- Hm.


Odeio quando ela vem com esse descaso. Isso esclarece tudo. É hora de virar a página...


- Sabe Érica – Paola interrompeu minha linha de raciocínio. Estranha essa voz que ela está usando, tão grave – Acho que as coisas não estão mais como eram antes... É melhor acabar logo com tudo de uma vez... Não que seja sua culpa, é uma coisa mais interna, sabe?

Geminiana cretina! Ontem mesmo tava toda meiga pra cima de mim, agora vem com esse papinho de culpa.


- Foi bom enquanto durou, mas agora é hora da gente seguir nossos caminhos...


Se bem que assim ela me polpa muito trabalho. Eu já ia terminar com ela mesmo.


- Fala alguma coisa.


Mas vou sentir tanta falta desse corpinho... Ai esse cabelo repicado!

Que merda.


- Concordo. Foi bom enquanto durou. Se sentir saudades me liga, viu gata?

- Obrigada. Essa sua calma é uma das coisas que mais gosto em você Érica.


Não se trata de calma, é tudo uma questão de lógica, amor.


- Que nada. Somos adultas afinal.

- Então eu vou indo.


Paola se aproximou e me deu um beijo de despedida. Vou sentir falta desses lábios...


- Tchau.


E saiu pela porta. A maldita calça de brim se foi. E eu pensando que encontraria nas mulheres alguma sensibilidade!

Fazer o quê. Aonde foi parar o meu maldito isqueiro?

Só o cigarro me é fiel.