terça-feira, 30 de novembro de 2010

Contos do espelho das graças

 Julho, parte dois:

Sol. Seus raios de luz sempre me agradaram. Pena que minha pele não compartilhe da minha opinião. Olho o relógio. Meio dia e meia, hora do intervalo. Radiação alta.

Pego o filtro solar e deixo ele escorrer lentamente para minha palma; lembro de Leandro. Porque ele não confia em mim? Nunca dei um motivo sequer para tanta desconfiança, tanto ciúmes.
Noite passada brigamos. Ele foi pro seu apartamento, eu fiquei no motel. Pensando sobre tudo; na vida e na morte.

-Você está bem Julho?

Adriana me encarava. Perguntei-me o que ela via quando olhava para mim. Um derrotado? Foi então que percebi minha mão cheia de protetor, que continuaria observando não fosse a interrupção.

- Ah. Não é nada. Só ando um pouco distraído mesmo.
- Também. Com essa firma que a gente trabalha qualquer um sai afetado! Telemarketing não é pra qualquer um.
- Concordo plenamente. Não pretendo ficar por muito tempo. – Comecei a passar o creme espesso e branco pelos braços. Os pelos sempre um incômodo.
- Isso é o que todos dizem meu filho.

De repente comecei a analisar Adriana. Eu no meu cubículo, ela no dela. Devia ser feliz. Cabelo loiro, liso e comprido. Olhos claros e pele bronzeada. Gosta de pagode e filmes de comédia. Heterossexual: Perfeitamente normal.
Perguntei-me como deveria me sentir perto dela. Excitado? Um animal predador?
Reparei em suas unhas vermelhas, pintadas ontem, já ruídas e descascadas. Qual seriam os problemas em sua vida para deixá-la assim, tão tensa? Pobre alma. Para todos não passa de um objeto descartável.

Peguei uma folha de oficio e desenhei um campo florido cheio de girassóis. Entre eles desenhei um botão de rosa.

- Toma. Essa é você.
- Ai! Obrigada Julho! Adoro flores.

Colocou o desenho sobre a mesa e se voltou para o seu Iphone. Um dia ela entenderia, mas não brevemente.

Quando cheguei em casa já eram quase 19h. Analisei minha mente, refletida no caos que era aquele JK.

Queria mudança.

Comecei a arrumar a bagunça, colocar cada livro em seu lugar e cada roupa para lavar. Fui checar a secretária eletrônica: nenhuma mensagem.

O que seria de mim essa noite? Se ficar em casa será pior. Melhor sair, encher a cara e anestesiar minha dor. Quem sabe não encontro alguém que me mereça.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Contos do espelho das graças

(Aqui é a Stone. Sei que o combinado era a madame postar a história dela primeiro, mas azar o dela. A minha foi escrita primeiro. E além do mais é tudo uma questão de interpretação; essa história não é da madame afinal.

Mas que droga. Vou falar do que importa. Imagino que alguns vão ficar meio chocados quando começarem a ler esse conto. Porque fala de lésbicas. Á essas pessoas eu digo: cresçam caramba. Ler essa história não se difere nem um pouco de quando tu lê a história do patinho feio; é tudo ficção e o que interessa é o psicológico dos personagens.

Só mais um aviso: Esse conto terá continuação e parte da história que será montada em pequenos contos a Madame vai participar. É isso, agora não vou mais encher o saco. Podem ler.)


Érica, parte um:

Hoje faz um mês que estamos juntas.

Eu a encaro enquanto ela põe a mesma maldita calça de brim que ela usa todos os sábados quando saímos. Nenhuma palavra. Ela se esqueceu.

Pensei que dessa vez seria diferente, mas me enganei. Devo ter confundido as coisas. Mas também com um corpo desses eu não tenho culpa. Tenho que parar de dar tanto poder a um par de nádegas e a um rosto bonito.


- Você está bem? Parece tão abatida?


Esqueci de falar que ela é de São Paulo, meio que metida a Gaúcha.


- Não é nada não. Só estou um pouco triste, deve ser a TPM ou a ressaca de ontem.

- Hm.


Odeio quando ela vem com esse descaso. Isso esclarece tudo. É hora de virar a página...


- Sabe Érica – Paola interrompeu minha linha de raciocínio. Estranha essa voz que ela está usando, tão grave – Acho que as coisas não estão mais como eram antes... É melhor acabar logo com tudo de uma vez... Não que seja sua culpa, é uma coisa mais interna, sabe?

Geminiana cretina! Ontem mesmo tava toda meiga pra cima de mim, agora vem com esse papinho de culpa.


- Foi bom enquanto durou, mas agora é hora da gente seguir nossos caminhos...


Se bem que assim ela me polpa muito trabalho. Eu já ia terminar com ela mesmo.


- Fala alguma coisa.


Mas vou sentir tanta falta desse corpinho... Ai esse cabelo repicado!

Que merda.


- Concordo. Foi bom enquanto durou. Se sentir saudades me liga, viu gata?

- Obrigada. Essa sua calma é uma das coisas que mais gosto em você Érica.


Não se trata de calma, é tudo uma questão de lógica, amor.


- Que nada. Somos adultas afinal.

- Então eu vou indo.


Paola se aproximou e me deu um beijo de despedida. Vou sentir falta desses lábios...


- Tchau.


E saiu pela porta. A maldita calça de brim se foi. E eu pensando que encontraria nas mulheres alguma sensibilidade!

Fazer o quê. Aonde foi parar o meu maldito isqueiro?

Só o cigarro me é fiel.

domingo, 21 de novembro de 2010

Comunicado lembrado


Ó vida.

Aqui estou eu tentando me lembrar inutilmente do que eu, essa criatura de pedra, tinha a comunicar para vocês, seres anônimos e invisíveis cuja a existência eu costumo questionar nas horas vagas.

Mudanças ocorrem em mim. Vejo isso apenas passando os olhos pela frase acima, pois comprovo que a minha habilidade de escrever e não falar nada está aumentando consideravelmente. Coisa que eu costumava achar impossível. 

- Escrever sem falar nada? Isso não é possível.

Mas eis que aqui estou. E falando de nada. Porém, este é um impasse que acaba de chegar ao seu fim derradeiro, pois eu me lembrei do comunicado que iria lhes fazer esta noite.

Vim aqui para falar de uma ideia que me ocorreu a um tempo atrás: escrever contos. 

Escrever contos é uma coisa que não costumo fazer, apenas criar dentro da minha mente para passar o tempo. Mas como eu já disse, mudanças ocorrem em mim. O primeiro conto que irei publicar aqui é um que conta a história de Liliam, a filha dos ventos. Ainda não terminei de escrever. Criei essa história ouvindo uma música de orquestra, uma coisa meio estranha. Bom, não falarei mais. Tentarei terminar esse conto.

Até breve.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A carroça andante


Certa vez me contaram uma espécie de ditado popular. É incrível que por mais comuns que alguns ditados pareçam eles fiquem infiltrados no meu cérebro.

E me fazem pensar.

O tal ditado que falei é o da carroça. “Uma carroça barulhenta é uma carroça vazia”.

Acredito que a mensagem seja meio de auto-ajuda para pessoas retraídas (como eu). Mas não me considero uma carroça cheia, me considero uma carroça forrada. Forrada com um forro macio e pesado que impede o som de sair.

É, até que eu posso ser comparada com uma carroça. Não apenas pela lerdeza ou pelo atraso cronológico, mas pelo fato de que o propósito de uma carroça existir seja transportar coisas, auxiliar os outros...

Sou uma carroça vazia e forrada, cujo ideal é ser útil; ser preenchida.

Mas enquanto isso não acontece, vou continuar a andar por estradas esburacadas, com minhas rodas discretas e silenciosas; esperando que em alguma curva eu encontre um propósito para continuar a viajem.

É, ser carroça é duro, mas acredito que pior é ser cavalo.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Lunática

Ai que coisa.

A adrenalina toma conta de mim e começo a esquecer todos os meus deveres (tão profundos em mim quanto a grama no chão). E com tanta informação minha mente se dispersa.

Será esse o problema das pessoas contemporâneas? Viver com muita informação na cabeça?

Até que faz sentido. Assim como os lixões poluem e degradam a vida sólida, a poluição na mente também não deve fazer bem.

Imagine só: ministério da saúde adverte, poluição mental prejudica o funcionamento físico e provoca problemas de competência no trabalho.

Talvez eu esteja deixando a adrenalina subir, mas com o jeito que as coisas tem se manifestado, não teremos tempo para pensar. Isso mesmo, acabo de achar o efeito mortífero que um lixão mental pode nos causar: o terreno fica infértil, você deixa de pensar.

Então no final de toda essa balela minha conclusão é que o problema das pessoas é que elas não pensam, apenas agem, como máquinas que trabalham incessantemente até que suas ligas enferrujem e seu modelo fique obsoleto.

Produtivo?

Nem tanto. Considerando que em vez de estar aqui, digitando feito uma lunática que não quer pensar sozinha, eu deveria estar cumprindo os meus deveres como um ser responsável.

Definitivamente ser responsável não é agradável. Mas essa discussão é melhor deixar de lado. Só o que tenho a dizer é: Cuide do seu lixão mental.