sexta-feira, 19 de agosto de 2011

As três fazes do cérebro, pelo menos do meu...

Bom dia. Estive ausente por um tempo... Nem sempre é muito fácil organizar as coisas em nossa cabeça.

Pelos registros percebo que não postei nada durante o mês de Julho inteiro, um pouco irônico. Mas sabe, às vezes ficar vazia é necessário - é uma coisa difícil de explicar. É como se houvesse um ciclo no funcionamento do cérebro, existindo três fases: A fase em que absorvemos informações, sentimentos e experiências; a fase em que digerimos tudo isso nos isolando em diferentes níveis e, por fim, a fase em que colocamos tudo isso pra fora num processo de externalização...

Adaptando isso ao meu funcionamento, diria que eu consigo escrever em duas dessas fases. Na absorção, quando eu crítico e coloco o meu ponto de vista das coisas, e na externalização (palavrinha um tanto complicada, será que existe mesmo?) o momento em que eu consigo criar alguma coisa, como uma história.

Isso tudo está me parecendo um tanto chato e começo a temer o fato de que vocês achem que eu estou enrolando. Mas com este post eu pretendia talvez três coisas (esse número de novo..): Explicar o meu desaparecimento, voltar a ter contato (mesmo que sem retorno) com vocês e trazer essa minha analise do funcionamento dos nossos cérebros... Se pensam parecido, por favor, podem ~externalizar~ os seus pensamentos.

PS: Só para deixar vocês a parte, agora temos uma conta também no site abcles. Por lá se pode encontrar os Contos do espelho das graças e muitas outras histórias com a temática lésbica... Aos interessados o link é esse:  http://www.abcles.com.br

Contos do espelho das graças

A garota do espelho, parte dez:

Se não me engano foi aqui, no prédio de psicologia ao lado do planetário. Ela era só uma aluna, mas eu queria falar com alguém. Alguém que quisesse me ouvir não apenas pelo dinheiro – até porque eu não poderia pagar.

Quero agradecer a ela por tudo. Ouviu meus desabafos e me salvou de uma surra. Preciso que ela saiba como me fez bem antes da minha partida. Eu, que sei como é encarar o preconceito das pessoas de frente, imagino os problemas e desafios que ela deve estar passando. Entrei pelo portão principal, o guarda na guarita nem me notou. Fui andando até onde eu sabia ser a recepção do curso. Não sabia como iria encontrar Érica no meio desse prédio, mas estava contando com a sorte e seguindo a minha intuição. Eu podia sentir. Era ali que eu deveria estar agora.

Fui em direção a uma funcionária – não parecia muito feliz – reconheci ela da outra vez em que estive ali.

- Pois não? – Me recebeu sem ao menos ver o meu rosto.

- Bom, como explicar... Eu vim encontrar uma aluna do curso de psicologia, Érica o nome dela, sabe como posso achá-la?

- Olha meu amigo, não tenho muito o que fazer por ti. Tu consegue imaginar quantas Éricas podem estar nesse prédio nesse momento? Sugiro que use a internet, vocês jovens são bons nisso afinal.

Internet... Se eu tivesse uma.

- Está bem. Obrigado, tchau.

Que coisa. Parece que a minha intuição estava errada afinal. Foi muita ingenuidade minha achar que vindo aqui eu a encontraria facilmente.

- Ei! Tu aí! Espera!

Uma voz feminina me chamou a atenção. Pelo visto a minha entrada aqui não deve ser permitida. Ela veio correndo, não me lembro dela. Cabelo castanho escuro, médio e preso, com muitas mechas soltas. Olhos também castanhos, porém  brilhantes. Óculos arredondados, um pouco fora de moda, Jeans levemente boca de sino, um all star verde surrado e uma camiseta preta desbotada dos Beatles que parecia combinar com a sua pele levemente bronzeada.

- Eu me lembro de ti! Fez consulta com a Érica no início do ano! Como que tu ta?

Aproximou-se e me cumprimentou com um beijo na bochecha. Cheirava a café.

- Bem. Na verdade vim procurá-la pra agradecer a ajuda...

- hm.. Então pelo jeito tu também não tem mais contato com ela não é? Que droga, achei que poderia ter alguma notícia.

- Como?

- Vem,vamos tomar um café, que eu te conto a história. Nossa esse curso sem a Érica tem sito bem mais maçante. Um tédio pra ser mais exata!...

Seguimos em direção ao que deveria ser a cafeteria do lugar. Ela falava comigo como se fossemos amigos. Parecia ser uma pessoa legal. Mas eu estava intrigado. Porque Érica não vinha mais pra faculdade? Se ela não a via há tanto tempo, essa não deveria ser a namorada dela.

- Foi no final de Abril, se não me engano – ela chegou ao ponto mor da história quando já estávamos sentados em umas das mesinhas quadradas e esperando pelos dois capuccinos - Érica havia começado a se comportar de uma maneira muito estranha... Começou a perder o equilíbrio. Como você sabe isso é uma coisa que não é característico dela. Um dia quando estávamos em uma aula direcionada aos traumas de infância ela simplesmente ficou pálida, saiu da sala logo em seguida. Cara. Ele era forte, aguentava qualquer tema numa boa! Ninguém entendeu essa reação dela... Todos deduzimos que ela tivesse algum histórico na família e nenhum psicólogo tem permissão de lidar com os problemas em que está envolvido de alguma forma. Não é seguro.

- Tu acha... Que eu tenho alguma coisa a ver com isso?

- ... Sim. Eu juntei as coisas sabe? Ela começou a ficar estranha logo depois de tu ter pedido a ajuda dela. Eu sabia que não era seguro ajudar alguém tão cedo. Mesmo que sejamos alunas esforçadas, ainda somos somente alunas.

- Então ela abandonou o curso?

- Espero sinceramente que não tenha feito isso. Ela tinha talento pra coisa... Acho que ela deve apenas ter trancado. Combina mais com o estilo dela.

Ficamos em silencio por um tempo enquanto a minha gratidão se convertia em culpa.

- Sabe – ela começou meio relutante – Se não for muito particular... Eu queria saber o que você contou pra ela. Eu sei que deve ser uma coisa muito intima! Mas... Eu estou preocupada com ela. Ela já fumava antes... Agora deve estar fumando mais do que nunca.

- Tu deve gostar muito dela. – ela congelou a expressão em uma cara de interesse - Bom. Acho que posso te contar sim... Se me prometer o sigilo absoluto esperado de uma psicóloga, é claro.

- Pode deixar comigo! Sou o sigilo em pessoa.

Apertou a minha mão como um sinal de cumplicidade.

- A propósito. Vamos nos apresentar devidamente! Me chamo Alice, em homenagem ao meu espelho!

- Prazer, me chamo Julho, em homenagem ao mês em que meu pai morreu.

Soltamos as mãos e rimos das nossas desgraças enquanto a garçonete trazia os nossos capuccinos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011