terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ensaio sobre o indivíduo absoluto

Dentre todos os mundos
O que melhor conheço é o meu
E entre todas as lembranças a que mais me marcou
Foi aquela faz pouco tempo

Efemeridade - entendo bem
Eternidade me soa estranho

A pior das dores é a minha
O pior dos medos – com certeza! – é o meu
E quando me falas
Das tuas terríveis dores
Dos teus piores medos
Ouço nitidamente o riso do desdém,
E sinto novamente os pingos gélidos da estranheza.

Rio de ti, de renome errado, de risos rasgados, de clareza escura, que de bico calado é mais digno de pena do que pena sem galinha
Não insista!

A pessoa mais sensitiva sou eu
E a verdade mais verdadeira, a minha
Pois a ti, meu caro semelhante,
Resta apenas à metafísica.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Contos do Espelho das Graças

No último cigarro, parte onze:

8:00 AM, ainda é cedo, vou dormir mais um pouco... 9:00 AM, só mais cinco minutos. (...) 11:00 AM, que barulho é esse?! Ah, o interfone... Quem poderia ser? Ai meu dedinho! Que merda esse rodapé da cama, só serve pra bater o pé! Se ele não sustentasse o meu colchão de uma maneira tão eficiente juro que pegava uma serra e transformava tudo em lenha!

- Sim?

Minha voz deve ter saído com um aspecto horrível, a pessoa nem ta respondendo.

- Quem fala?

Eu podia estar dormindo agora, então desembucha!

- Hã... Oi Érica! Aqui é a Alice... Não sei se tu ainda se lembra de mim.

- Alice... Tu não deveria estar na aula agora?

Meu sono me impede de ser educada.

- Eu poderia dizer o mesmo. Mas não. Hoje é a minha “folga” na semana. Posso entrar?

Entrar? Droga, como que ta o meu cabelo? Eu to de calça? Ah, to sim.

- Entra aí.

Eu tenho o tempo dela subir três lances de escada pra dar uma ajeitada aqui. Puts, acho que não vai dar tempo, isso aqui ta um caos! Vou escovar os dentes.

Beee!

Saco, ela já ta na porta! Ok, pelo menos deu pra dar uma escova. Nossa, minha cara ta toda amassada. Vou abrir essa bendita porta marrom.

- Oi Érica! Há quanto tempo... Tu corto o cabelo?

Nossa, a Alice não mudou nada! Parece até que ta com a mesma roupa de quando a gente se viu pela ultima vez. Só os óculos... Esses são redondos e não quadrados, acho que combinou mais com ela.

- Sim e não. Como que tu ta? – Me aproximei e abracei ela, deixando sem reação. Pelo visto eu ainda mexo com ela.

- Bem né. Entediada, mas saudável! Depois que te deu essa Loca aquele curso quase que perdeu a graça. Mas como assim “sim e não”, ele ta bem mais curto do que eu lembrava!

-Bom. É que eu cortei ele, mas já faz um tempo... Na verdade eu cortei em casa na semana passada...

Alice ficou de boca aberta.

- Cruzes! E tu teve coragem? Teu cabelo era tão lindo antes!

- Muito obrigada pelo “antes”, acho que fiz cagada mesmo.

- Ah... Mas ele ta legal agora também. Só da um choque pra quem não ta acostumada.

O primeiro silencio constrangedor em que ela ficou me olhando com aqueles olhos brilhantes se deu início e agora me pergunto se devo perguntar o porque da visita dela ou não. Não sei se quero saber.

- Então... Quer comer alguma coisa? Tem pão e café...

- Na verdade eu vim pensando em te convidar pra almoçar. Precisamos colocar a conversa em dia!

Conversa...

- Aonde seria?

Percebi que tinha uma carteira de cigarro com exatamente O ultimo deles me olhando de cima do balcão da cozinha. Que tentação!

- Isso tu vai ter que descobrir. Não to afim de ficar explicando! Agora tira esse olho de cima daquele cigarro!

Olha! Ta ficando imponente a moça! Pena que agora não seja o momento certo pra isso. Ai Alice. Hoje eu realmente não to com ânimo pra sair.

- Aonde tu quer ir?

- Ah, ta bom! Pode ser em qualquer um aqui perto. Acho que vi um vegetariano bastante promissor pelas redondezas...

Vegetariano? Não chego a ser vegetariana, mas adoro comida sem carne. Se o preço não for muito indigesto até que seria uma boa. Mas o que eu não sei é o que ela veio fazer aqui... Faz tempo que eu não vejo essa guria, mas eu conheço essa cara! Aí tem.

- E então?

- Aiai, que horas são?

- Hora de se mexer! - Lá vai ela entrando pela minha porta toda animadinha – Vamos lá Érica, o que tu tem que fazer pra ficar pronta?

É, acho que não tenho escapatória.

- Espera aí na sala. Daqui a pouco eu to pronta.

- Ta bom. - Voz de triunfo, merda, ela soube exatamente como me convencer. Estudante de psicologia é foda.

Me arrumei rapidamente, nem tinha muito o que fazer com o cabelo, só coloquei um creme pra deixar ele um pouco espetado. O que me incomoda nela são esses jogos psicológicos. Se gosta de mim fala logo guria! Do jeito que as coisas vão eu até poderia te dar uma chance. Só não sei se me arrependeria ou não.

- Já ta pronta?

O que ta fazendo aí na minha estante? Sabia que tava me estudando. Tá, ta bom, eu devo estar exagerando.

- To.

Peguei o gracioso cigarro em cima da mesa e acendi.

- Vamos?

-Vamos. - Olhou torto pra ele como eu sabia que faria.

O restaurante era realmente perto, em menos de dez minutos já estávamos lá. Conheço algumas pessoas que definiriam o lugar como uma espécie de viveiro de “ecochatos”, ou simplesmente como um lugar clean. Até que é agradável... O branco das paredes se quebra com os efeitos da iluminação em tons de amarelo no teto e verde em alguns pontos perto do chão. Tem também esses quadros de frutas e paisagens que por algum motivo os restaurantes adoram. Alice escolheu uma mesa perto da parede, uma pequena pra duas pessoas, e eu a segui.

- Se eu te conheço, tu deve ta se perguntando por que eu te chamei aqui né?

Ela ta usando esse tom de brincadeira, mas eu sinto a cautela na voz dela. Aonde ta querendo chegar?

- É, acho que tu acertou.

-Não se pode esconder nada para os que tem o dom da psicologia! – riu – Bom. Esses dias eu encontrei lá no noss... No prédio da Psicologia o Julho. E me lembrei na hora que ele tinha feito aquelas “consultas” contigo.

Pressinto merda vindo por aí.

- Então decidi falar com ele pra ver se tinha contato com uma certa criatura que sumiu do mapa, não é Érica? Então ele me disse que não te via há tempo também, mas que tu ajudou ele num dia lá na Redenção. Daí eu decidi te visitar pra ver como tu tava...

- Hm.

- É... Vamos nos servir?

- Vamos.

Comi muito, comida vegetariana é tudo de bom! Pena que a comida não desceu tão bem quanto poderia, porque eu sei que ela não terminou o assunto. Ela vai concluir uma análise a qualquer momento.

- Eai?

- Eai o que?

- Gostou da comida?

O volume atual do meu estômago responderia isso por mim.

- Sim, bastante.

Um minuto de silêncio.

- Então Érica – Alice ajeitou os óculos arredondados sem tirar os olhos dos meus, lá vem a conclusão – O que eu queria realmente quando te convidei para vir aqui era te perguntar uma coisa... Não, na verdade fazer uma proposta.

As mãos dela estão em forma de delta com o cume virado para cima sobre a mesa, Alice sabe exatamente o que está fazendo. Que inveja.

- Érica Costa Castro, você aceitaria a mim como sua analista?

Imagens no espelho

Boa tarde senhoras e senhores. Gostaria de dizer que a Victória R. está muito perto de terminar o próximo capitulo do Contos do Espelho das Graças. Tenho que comentar: demorou em V. Mas coitada da minha colega, nosso corpo tem andado em extrema atividade mesmo. A X até anda muito feliz agora, porque enfim está tendo uma folga na sua rotina... Enfim.

Chega de falar dos outros! Também ando meio afastada de vocês. Ultimamente tem sido mais fácil me expressar por poemas, mas de vez em quando é bom ter uma linguagem assim mais: aberta. Ser tão subjetiva às vezes me cansa. Nem sempre é bom sabe?

Às vezes, como tantas pessoas, me pergunto sobre o sentido da vida. Não sou como essas que passam toda a sua existência se questionando sobre como tudo surgiu ou porque, sou mais do tipo que prefere viver e tentar descobrir na prática. Porém. Ainda caiu em contradição. Dias e dias que sou feliz, que não penso, que não sou eu, e de repente: Tudo se perde. As coisas perdem o sentido, vejo-me voltando a estaca zero. Tentarei ser mais clara, mas não posso dar muitos detalhes.

Sabe quando tu olha pra ti e diz eu sei exatamente quem tu é, sei quem tu será, sei a quem tu é fiel e sei o que te faz feliz? Poder falar isso significa estar em paz. E eu não estou mais.
É como se tudo que eu construí até aqui entrasse em curto, perdesse a cor. Eu tento me reanimar, tento continuar, mas acabou: não é mais o que era antes. Será que ainda sou a mesma de antes? A mesma Madame R? Não consigo responder.

Vejo-me entre duas escolhas. É investir no presente ou pensar no futuro. É decidir entre o que me faz feliz e quem eu sou, e isso me leva novamente a uma pergunta.
- Quem eu sou?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Casa de fundição

Momento inóspito  da mente
Aquele em que tento inaugurar
Uma coisa que recentemente
Obrigo-me a aceitar.

Rimas, o que são rimas?
Aquelas coisas que se vê por aí
Reflexo de um passado em Minas
Da resignação do Andaraí.

Me culpo, me julgo
E erro na expressão
Corrijo-me e sinto novamente a resignação

Das rimas tortas
Se fez o bolo
No qual me fundo na contradição.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Engaiolada

E se os pássaros falassem?
O que diriam eles
De seres tão terrestres?

Será que gostariam de ter mãos e pés,
Assim como nós,
Que almejamos em cada bater de asas a liberdade?

Não.
São livres
Do pensamento
São livres
Para voar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Condiz com o meu estado de espírito

Antonio Vivaldi : Concerto for 2 Cellos in G Minor

Caninos

Fome que corrói.
Meus dentes afiados incorporando uma fera,
Nos caninos a fúria de um leão.

Ainda fosse apenas fome.
Quando a mente está bem o corpo aguenta, mas não
A decepção me presenteia com essa raiva aguda.

Quero despedaçar, dilacerar
Quero morder! Arrancar aos pedaços a injustiça,
Apaziguar minhas chamas.

Pensei que estaria sempre ao meu lado,
Que se preocupava.
Sinceramente
Eu esperava mais.

De você, de mim
Do mundo.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Sem conclusões sobre o assunto.

Raiva. Fenômeno interessante que me atormenta por alguns dias do mês.

"V? Há quanto tempo??" Pois é. Há quanto tempo, não é criançada. O que posso dizer? Eu não sou muito de escrever. Imagino que talvez há uma hora desses vocês já tenham percebido isso.

Tantas são as coisas com o poder de tirar a gente do sério! (pelo menos à mim) Eu poderia fazer listas e listas de coisas que me abalam, me irritam, mas não - eu só sinto. Certas coisas não são para serem expressadas, são para serem sentidas.

Eu disse que não ia listar, mas eu me contradigo. Dentre todas as coisas posso citar pelo menos duas situações que se agrupam no mesmo sistema conceitual (voltei com tudo, falando difícil também!): Injustiças.

Antes que você diga "que coisa mais óbvia Victória Stone!" eu digo cala a boca e escuta. Essa palavra injustiça tem uma gama de significados, ou pelo menos de situações, muito grande. Então não me venha falar que já imaginava isso de mim, porque talvez você ainda não saiba o que eu estou querendo realmente falar.

É justamente esse tipo de injustiça um dos que eu estou tentando condenar: A injustiça do mau entendido, da conclusão precipitada. Quando uma pessoa se atreve a te denominar uma coisa que você não é, no meu caso uma pessoa fria.

Tudo bem que talvez para a minha parte do ser isso seja um pouco de verdade, mas é no mínimo ignorância falar isso da madame sentimental R. Puta que pariu. Nem todos tem aquela sensibilidade de perceber que o silêncio pode ser uma forma de afirmação? Não, não tem V.

Agora que talvez vocês não estejam entendendo nada, vou para a segunda maneira de injustiça aplicada... Opa. Já me esqueci do ícone original que ia estar nessa linha, mas não tem problema, coloco outro(s) no lugar. Interpretações erradas, tanto de textos, quanto de conversas. Não preciso nem explicar né? Pra esse tipo de pessoa eu só desejo uma coisa: sofra com a sua ignorância infeliz.

"Cadê a tua conclusão V? Não ia falar de duas formas de injustiça? Tu falou quase que a mesma coisa duas vezes!" Pois é, entenda o que eu escrevi como quiser, mas na prática posso garantir que as duas situações não são iguais. Porquê? Porque uma é o mau entendido do silêncio e a outra do que foi falado. Quanto a minha conclusão do assunto... Não estou muito a fim de fazer. Até a próxima tpm crônica.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Exaustão

 A cabeça ferve,
 Terei eu pensado demais?
 Não sei.
 Tudo o que sei é que cansei
 Cansei de estar cercada
 Cansei de tentar entender.
 Descansarei.
 Que o mundo gire sozinho
 E me deixe parar.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Nem um café.

 Engraçado como com o tempo vamos ficando cada vez mais dependentes da tecnologia. Eu, por exemplo, tenho escrito cada vez menos.
- Porquê?
 Porque me acostumei a escrever no meu computador e por causa disso minha inspiração não acompanha a possibilidade de escrever.
 Foi bom mesmo perceber isso. Essa dependência me deixa agoniada! O que somos nós humanos sem a eletricidade hoje em dia? Nem um café. Até as cafeteiras de fogão entraram em desuso (com algumas exceções).
 Coisas antigas me encantam. Uma máquina de escrever funciona sem luz. Uma torradeira de chapa funciona sem luz - e com um pouco mais de conhecimento podemos trocar o fogão por uma fogueira!
Aonde quero chegar com tudo isso? Lugar algum. Simplesmente tenho que usar mais o bom e velho papel e caneta.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

No Brilho dos Olhos

 Triste é perceber que não te amam
 Que aqueles que deveriam fazê-lo
 Vêem isso como um peso,
 Um compromisso que prefeririam não ter. E seriam mais felizes sem.

 Triste é ter que fingir
 Que não percebe nos olhares
 A reprovação
 E a saudade incômoda de
 Uma inocência da qual todos ajudaram a matar.

 Triste é saber que ela não morreu,
 Mas que no brilho dos olhos sínicos
 Só existe a cegueira.

 Antes adotem outra criança
 Dêem meu nome a outra gente,
 Mas não finjam que me amam.

É tão triste reprovar essa mentira.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

As três fazes do cérebro, pelo menos do meu...

Bom dia. Estive ausente por um tempo... Nem sempre é muito fácil organizar as coisas em nossa cabeça.

Pelos registros percebo que não postei nada durante o mês de Julho inteiro, um pouco irônico. Mas sabe, às vezes ficar vazia é necessário - é uma coisa difícil de explicar. É como se houvesse um ciclo no funcionamento do cérebro, existindo três fases: A fase em que absorvemos informações, sentimentos e experiências; a fase em que digerimos tudo isso nos isolando em diferentes níveis e, por fim, a fase em que colocamos tudo isso pra fora num processo de externalização...

Adaptando isso ao meu funcionamento, diria que eu consigo escrever em duas dessas fases. Na absorção, quando eu crítico e coloco o meu ponto de vista das coisas, e na externalização (palavrinha um tanto complicada, será que existe mesmo?) o momento em que eu consigo criar alguma coisa, como uma história.

Isso tudo está me parecendo um tanto chato e começo a temer o fato de que vocês achem que eu estou enrolando. Mas com este post eu pretendia talvez três coisas (esse número de novo..): Explicar o meu desaparecimento, voltar a ter contato (mesmo que sem retorno) com vocês e trazer essa minha analise do funcionamento dos nossos cérebros... Se pensam parecido, por favor, podem ~externalizar~ os seus pensamentos.

PS: Só para deixar vocês a parte, agora temos uma conta também no site abcles. Por lá se pode encontrar os Contos do espelho das graças e muitas outras histórias com a temática lésbica... Aos interessados o link é esse:  http://www.abcles.com.br

Contos do espelho das graças

A garota do espelho, parte dez:

Se não me engano foi aqui, no prédio de psicologia ao lado do planetário. Ela era só uma aluna, mas eu queria falar com alguém. Alguém que quisesse me ouvir não apenas pelo dinheiro – até porque eu não poderia pagar.

Quero agradecer a ela por tudo. Ouviu meus desabafos e me salvou de uma surra. Preciso que ela saiba como me fez bem antes da minha partida. Eu, que sei como é encarar o preconceito das pessoas de frente, imagino os problemas e desafios que ela deve estar passando. Entrei pelo portão principal, o guarda na guarita nem me notou. Fui andando até onde eu sabia ser a recepção do curso. Não sabia como iria encontrar Érica no meio desse prédio, mas estava contando com a sorte e seguindo a minha intuição. Eu podia sentir. Era ali que eu deveria estar agora.

Fui em direção a uma funcionária – não parecia muito feliz – reconheci ela da outra vez em que estive ali.

- Pois não? – Me recebeu sem ao menos ver o meu rosto.

- Bom, como explicar... Eu vim encontrar uma aluna do curso de psicologia, Érica o nome dela, sabe como posso achá-la?

- Olha meu amigo, não tenho muito o que fazer por ti. Tu consegue imaginar quantas Éricas podem estar nesse prédio nesse momento? Sugiro que use a internet, vocês jovens são bons nisso afinal.

Internet... Se eu tivesse uma.

- Está bem. Obrigado, tchau.

Que coisa. Parece que a minha intuição estava errada afinal. Foi muita ingenuidade minha achar que vindo aqui eu a encontraria facilmente.

- Ei! Tu aí! Espera!

Uma voz feminina me chamou a atenção. Pelo visto a minha entrada aqui não deve ser permitida. Ela veio correndo, não me lembro dela. Cabelo castanho escuro, médio e preso, com muitas mechas soltas. Olhos também castanhos, porém  brilhantes. Óculos arredondados, um pouco fora de moda, Jeans levemente boca de sino, um all star verde surrado e uma camiseta preta desbotada dos Beatles que parecia combinar com a sua pele levemente bronzeada.

- Eu me lembro de ti! Fez consulta com a Érica no início do ano! Como que tu ta?

Aproximou-se e me cumprimentou com um beijo na bochecha. Cheirava a café.

- Bem. Na verdade vim procurá-la pra agradecer a ajuda...

- hm.. Então pelo jeito tu também não tem mais contato com ela não é? Que droga, achei que poderia ter alguma notícia.

- Como?

- Vem,vamos tomar um café, que eu te conto a história. Nossa esse curso sem a Érica tem sito bem mais maçante. Um tédio pra ser mais exata!...

Seguimos em direção ao que deveria ser a cafeteria do lugar. Ela falava comigo como se fossemos amigos. Parecia ser uma pessoa legal. Mas eu estava intrigado. Porque Érica não vinha mais pra faculdade? Se ela não a via há tanto tempo, essa não deveria ser a namorada dela.

- Foi no final de Abril, se não me engano – ela chegou ao ponto mor da história quando já estávamos sentados em umas das mesinhas quadradas e esperando pelos dois capuccinos - Érica havia começado a se comportar de uma maneira muito estranha... Começou a perder o equilíbrio. Como você sabe isso é uma coisa que não é característico dela. Um dia quando estávamos em uma aula direcionada aos traumas de infância ela simplesmente ficou pálida, saiu da sala logo em seguida. Cara. Ele era forte, aguentava qualquer tema numa boa! Ninguém entendeu essa reação dela... Todos deduzimos que ela tivesse algum histórico na família e nenhum psicólogo tem permissão de lidar com os problemas em que está envolvido de alguma forma. Não é seguro.

- Tu acha... Que eu tenho alguma coisa a ver com isso?

- ... Sim. Eu juntei as coisas sabe? Ela começou a ficar estranha logo depois de tu ter pedido a ajuda dela. Eu sabia que não era seguro ajudar alguém tão cedo. Mesmo que sejamos alunas esforçadas, ainda somos somente alunas.

- Então ela abandonou o curso?

- Espero sinceramente que não tenha feito isso. Ela tinha talento pra coisa... Acho que ela deve apenas ter trancado. Combina mais com o estilo dela.

Ficamos em silencio por um tempo enquanto a minha gratidão se convertia em culpa.

- Sabe – ela começou meio relutante – Se não for muito particular... Eu queria saber o que você contou pra ela. Eu sei que deve ser uma coisa muito intima! Mas... Eu estou preocupada com ela. Ela já fumava antes... Agora deve estar fumando mais do que nunca.

- Tu deve gostar muito dela. – ela congelou a expressão em uma cara de interesse - Bom. Acho que posso te contar sim... Se me prometer o sigilo absoluto esperado de uma psicóloga, é claro.

- Pode deixar comigo! Sou o sigilo em pessoa.

Apertou a minha mão como um sinal de cumplicidade.

- A propósito. Vamos nos apresentar devidamente! Me chamo Alice, em homenagem ao meu espelho!

- Prazer, me chamo Julho, em homenagem ao mês em que meu pai morreu.

Soltamos as mãos e rimos das nossas desgraças enquanto a garçonete trazia os nossos capuccinos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

terça-feira, 7 de junho de 2011

Contos do Espelho das Graças

Por outros lados, parte nove

Tento me acalmar pela décima vez. Meu tio ali na sala não pode perceber minha alteração, senão as coisas ainda podem ficar piores... Melhor é me concentrar em outra coisa que não seja a minha vida pessoal problemática, como vimos isso só leva a lágrimas. 

Como eu odeio chorar! Além de tudo meus olhos ficam vermelhos e inchados e, ainda por cima, doendo. É incrível como as pessoas conseguem deixar a minha vida tão complicada. Minha mãe em São Paulo quer me afastar de um “estilo de vida problemático” o que segundo ela me ajudaria nessa minha “fase confusa”. Que ódio que eu tenho de tudo isso! Quem precisa de terapia são eles.

Não sei como minha mãe tem coragem de defender os homens quando na verdade ela sempre falou mal do meu pai. Como se eu não estivesse estado lá para testemunhar aquele casamento infeliz durante toda aminha criação! Ainda por cima agora que eu tenho a chance de construir a minha própria vida ela fica se metendo. Ou mais precisamente metendo o meu tio. Que inferno.

Mas o que eu tenho pra essa semana mesmo? Hm. Tenho que adiantar esse ensaio pra terça feira, senão aqueles livros que tenho que ler pra sexta vão me matar, quase que literalmente!
-Paola?                

- Sim tio?
- Tu ta bem sobrinha?
- Claro. É só a tensão da faculdade...     
- Ah sim! Que curso tu ta prestando mesmo?
- Letras. Bacharelado, não licenciatura.
- Hm. Ok.  Quarta a tua mãe vai vim te visitar. Ela me disse que quer ver como que tu ta e discutir as tuas perspectivas...
- Ah sim. Claro.

 Meu tio apesar de um tanto bruto percebeu que eu não estava pra conversa e que a minha falta de animo pra discutir a notícia polemica só podia significar uma coisa: Quero ficar sozinha. E assim foi. Ele saiu do quarto e disse que ia pra sua casa.

 A vinda de minha mãe só me trazia uma coisa em mente. Ela com certeza vai me trazer mais perturbação. Que merda. Nem Letras eu queria fazer.  Minha vontade era de cursar Artes Visuais, ou História da Arte que fosse, as duas me parecem ótimas! Mas claro que esses não são cursos dignos pra ela! Melhor é ser professora então, assim como ela... Professora de Matemática. Depois de tanta briga eu ainda acabei cedendo com algumas condições: primeiro eu me mudaria pra uma cidade da minha escolha; segundo: não iria ser professora de matemática; e por fim, não seria professora e sim tradutora. 

Na hora eu não me dei conta, mas caí numa grande cilada. Pois uma a uma das minhas condições não estão sendo respeitadas pelo jeito... E quanto à história de ser tradutora... Eu realmente não sirvo pra isso! Me sinto totalmente fora do rumo apropriado pra mim.

Mas quer saber de uma coisa? Eu já sei o quero fazer. E sei o que quero mudar daqui por diante! Minha vida será minha e vou fazer com que as coisas comecem a dar certo. Entre minha vida acadêmica e eu, entre Érica e eu. Que chegue quarta-feira! Não tenho receio algum de mostrar pra minha mãe quem a filha dela é de verdade!

Contos do Espelho das Graças

Adubo de Érica, parte oito

“Mas da onde vc o conhece?” aiai, mais uma vez essa perguntinha? Mas que droga! Eu já respondi! “Não sei se realmente o conheço, é que ele me lembra um menino que eu conheci na infância” “Então porque vcs tavam conversando?” aaah! “A gente não tava conversando. Eu corri com ele pra fugir de um bando de neonazistas”. E o interrogatório pelo bate papo do computador continuou, mas por mais que eu me empenhasse não conseguia convencer Paola da minha inocência.

Também não era pra menos. Eu mesmo me surpreendo de quão absurda a realidade pode ser às vezes, mas o pior de tudo é que era a pura verdade! Mas que ciúme é aquele afinal? Ciúmes de um homem? Como assim? Isso é muita insegurança. Não pode ser sério.

“Érica, acho que isso é uma coisa importante pra ti, só que você não percebeu ainda... Eu vi o olhar na sua cara! E não era normal... Eu preciso saber o que te afeta tanto assim nessa história” “Escuta Paola, não era tu que queria terminar comigo a um tempo atrás? Porque todo esse interesse pela minha vida sentimental de repente, em? Não estou te entendendo.”

Ok. Se arrependimento matasse eu já estaria servindo de adubo pra alguma secóia na América do Norte agora. Como eu queria que esses programinhas tivessem a opção de “apagar”. Seria salvadora essa opção! Que merda, ela não ta respondendo. Ela não deve saber a resposta! Aah que droga. O melhor a fazer depois de uma cagada dessas é deixar a coisa esfriar. Há não ser que isso tenha magoado muito Paola... Mas o que eu to pensando? Ela nem deve ter levado isso a sério! Nosso relacionamento sequer chega a ser oficial. Será que a errada sou eu? Talvez eu devesse ter tomado a iniciativa desde o início... Aonde que ta o meu isqueiro? Mas que merda!

“Érica..” cancelei minha busca por um estante na expectativa do que estava por vir “Não quero pressionar você a nada. Acho que precisamos de um tempo pra colocar a cabeça em dia. E vou tentar fazer isso dar certo dessa vez.”

Paola parece estar offline. As mensagens serão entregues quando esse contato entrar.

Ah, então é aí que tu tava todo esse tempo? Seu danadinho! Vem pra cá. Ascende esse cigarro pra mim, ok? Hoje teremos uma longa noite pra pensar, meu velho amigo. Como será a vida de um adubo?

sexta-feira, 20 de maio de 2011

À la carte


A vida é um rodízio.
Onde massas boas e ruins se misturam
E quando chega a sua hora não tem mais jeito
A sua escolha irá moldar um novo mundo, uma nova dimensão
E tudo o que você tem terá que deixar ir, deixar seguir o seu rumo
Ou a sua degradação
Pois em um rodízio é sempre um depois o outro,
A sua vez também terá que passar.

domingo, 8 de maio de 2011

Victória R. Stone

Não existem motivos para eu existir, se não ser aquela voz dentro da nossa cabeça que mostra a idéia oposta. Eu sou o contra, a parte racional. Sou a fúria e também os pensamentos sinceros, perversos. Não sou cruel, sou humana. Quando ganho a voz sou mal compreendida, mas assim como nós sabemos ouvir, eu tenho a minha hora de falar!

Talvez você esteja me estranhando. Então eu digo: Você não me conhece. Pois se escrevo errado é por opção e se escrevo certo é por capacidade. Então me deixe explicar aquilo que há quase um ano atrás eu não quis. A letra V em meu nome é uma abreviação para Victória. Não pense que esse é o nome do nosso todo, pois não é. Apenas era para ser.

O nome da X era para ser Victória, mas eis que um certo amigo de seu pai teve uma filha antes e então o nome foi “usado”. Talvez eu seja para ela a o reflexo da injustiça, a demonstração de ira, de sinceridade explosiva. Talvez eu apenas seja uma parte que ela não quer dentro de si, mas que existe. Eu sou a indesejada dentro de mim e me torno indesejada quando sou exposta. V. R. Stone, Victória R. Stone. Não diga muito prazer, pois eu sei que pode ser mentira.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O mergulho

92, alguém me visitou.
Será que foi? Tanto faz.... Queria saber o que eles tem em mente
Aqui é onde eu estou segura, aqui posso falar.
Quantos anos você tem?
Que diferença isso faz?
Faz diferença se minhas intenções não forem as melhores... Bom, bom. Isso pode ser usado.

Do lado de cá ninguém me entende. Minha pele arde e minhas costas doem, o que deu em mim?
Se eu falar eles vão ver e irão me perseguir como fizeram com ela. E ela? O que aconteceu com ela?
Acho que a engoliram feito dragões e cuspiram aquilo que sobrou para o mundo acabar o que começaram
Acho que nunca mais será a mesma, pois o que o tempo não mudou ela o fez. Tanto faz para você agora.
É, tanto faz para mim. Acho que estou com problemas... O que faço da minha vida?
Acho que você poderia começar usando a sua mente para alguma coisa de util. bem melhor do que ficar por ai falando sozinha.
É mesmo. Meu transtorno acabou, já posso voltar ao mundo real.
Ótimo. Até a próxima então.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Invasão V

Bom dia seres humanos. Ou será que devo dizer boa noite? Bom, não importa. Faz tempo que eu não venho falar pessoalmente com vocês! Da ultima vez que eu apareci nem seguidores tinha nesse blog... Mas eis que aqui estou. E sem algo específico para falar...

Eu bem que poderia ficar falando coisas sobre o casamento da família real ou sobre o preço da gasolina ou sobre a padaria lá da esquina, que nem se quer existe, mas não vou falar sobre nada disso. Me ocorreu de falar sobre... hmm... A cultura popular! Se é que se pode chamar assim.

Se você mora em uma cidade como a minha vai entender do que estou falando. Às vezes parece que o povo gosta da ignorância, só digo isso. Porque só o que a massa gosta é modinha. Ou nem isso. Como me irrita saber que só Luan Santana, Gaiola das Poposudas, Enso e Rodrigues ou, vá lá, Restart tem sua vez. Isso até pode ser considerado música, mas não pode ser considerado prioridade!

Quero dizer que existe uma grade muito ampla de bandas, tanto regionais quanto nacionais, que tem muito a oferecer musicalmente e acabam firmando os pés mesmo é numa garagem de casa porque ninguém se interessa por elas. A indústria nacional só pensa no lucro e o lucro é o povo que faz, ou seja a culpa do cenário musical nacional estar tão bitolado em um estilo só (ou em um gosto só) é do mal gosto das pessoas! Credo!

Depois dessa minha conclusão, desabafo também pode ser, espero que vocês não fujam desse blog, porque a Madame não é tão ruim como eu... Isso que hoje eu to de bom humor... Enfim. Antes de me despedir de quem estiver lendo esse post quero ter a honra de informar que. O Contos do Espelho das Graças em breve terá a sua próxima parte publicada! Só falta bater "aquela" inspiração sabe?

Bom dia pra você. Ou noite se preferir, fui.

domingo, 17 de abril de 2011

A Madame e a R

Entrou em meu quarto e nada tinha eu a dizer.
Seu nome me disse, R tal qual o meu;
Disse que não voltaria e que em um livro sobreviveria.
Quis dizer-lhe que eu não era ela e que nada tinha a temer,
Mas um espelho se postou em minha frente e minha fala não terminou.

Meus cabelos eram como os dela,
Meu rosto era como o dela
Meus olhos eram dela.
Desde então não mais a vi.
E continuo aguardando a sua volta
Para que o eu volte a ser meu
E o ela não seja mais tão distante para mim, como é dela.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Correnteza

Sempre ouvi dizer que não é bom se prender ao passado. Mas sabe de uma coisa? Às vezes a memória é tudo o que temos. Quando isso acontece o presente perde o sentido e acordar se torna cada vez mais desnecessário.
 Se você é como eu, sabe do que estou falando. Se não é, irá me chamar de maníaca depressiva. Eu não me importo. Porém existe um problema para nós que habitamos durante muito tempo o nosso próprio pensamento: O real se torna irreal e suas lembranças se tornam fantasiosas. O que leva a uma pergunta um tanto estúpida, porém perfeitamente pertinente...

- Isso existiu? Será que algum dia essas lembranças felizes realmente foram sólidas?

E eis que chegamos a um momento de risco para os navegantes de sua própria mente, um momento de colapso, de crise – pois não sabemos se aquilo o que nos restava, aquilo que tínhamos, era real.
 Estive em crise durante meses com minhas memórias e agora concluo que se elas de fato aconteceram ou não, não importa. Pois de uma forma ou de outra se foi; e por isso não existe mais, mesmo que algum dia o tenha. Me conformo com o presente, que é onde eu vivo e reparo nas cicatrizes não só do meu corpo, mas da minha alma, pois elas são a prova de que o passado existiu.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Contos do espelho das graças

 Nos labirintos da mente, parte sete:

Andar. Parar. Seguir. Virar. Esquerda, direita. Desviar do buraco na calçada. Cheguei. Dizem que não existe lugar no mundo melhor do que a nossa casa, mas eu tenho minhas dúvidas. Se esse é o melhor lugar do mundo, então porque é aqui que tenho as minhas piores crises de depressão?

Checo a secretária eletrônica. Uma mensagem. “Deje su mensaje después del tono” “Oi Julho. Queria te ver. Queria esclarecer as coisas na verdade... Me liga tá? Tchau.” Fim da mensagem. A voz de Leandro era indecisa, não sabia se queria ser dura ou sentimental. Eu ligarei... Mas não agora.

Meu estomago ronca, clamando por comida. Fui até a geladeira para atender as preces de minhas entranhas. Não tinha muita coisa, nada que eu quisesse comer na verdade. Assim como é com as pessoas... Pois é. Essa frase ficou meio vulgar, mas é a pura verdade. Mulheres não faltam a minha volta, no entanto, nenhuma me chama atenção.

Lembro daquela que chamou pelo meu nome no parque a duas semanas atrás. Sua voz era nostálgica aos meus ouvidos, mas isso eu não pude entender... Aquele rosto era familiar, mas não consigo lembrar da onde o conheço. Os olhos verdes e profundos dela era o que mais me intrigava, eu tinha aquela certeza irritante de que os conhecia; como? Tente se lembrar Julho! Estatura mediana, cabelos na altura dos ombros, negros, extremamente negros. A pele contrastava com esse tom forte, era branca, muito branca. Com certeza deveria se cuidar com o sol. Mesmo assim. Não me lembro. Ela não quis revelar seu nome, apenas adivinhou o meu por “coincidência”.

De qualquer forma devo ser grato a ela. Pelo visto o perigo me ronda até onde eu o ignoro. Abro a última gaveta da geladeira: dois cachos de uva. No primeiro os grãos eram saudáveis e graúdos, porém em pouca quantidade. Já o segundo era realmente grande, mas muitos grãos estavam um tanto murchos ou inválidos. Qual deles pegar?

Escolhi o segundo, como se assim estivesse escolhendo meu destino e reconhecendo o meu passado. Um nome me veio em mente: Érica?   

domingo, 6 de março de 2011

Contos do Espelho das Graças

Do lado de fora, parte seis:

- Quantos anos tu tem?

E você com isso. Ai ai, as pessoas hoje em dia não tem mais educação. Lá de onde eu vim as coisas são diferentes... Será que são mesmo?
- Quantos você acha?
- Eu não sei. Talvez, dezenove?
Tsc. Mais um metidinho a galã tentando me cantar.
- Sei não. Acho que a resposta vai ficar na sua imaginação mesmo.

Não suporto esses vizinhos tarados que tenho aqui no Sul. Ouvi dizer lá no Rio que aqui era terra de gente culta... Deve ser folclore. Nunca vi povinho mais nervoso! Perdem a cabeça por qualquer coisa e, quando se vê, já tão atacando um pedaço de boi. Tristeza que me dá isso... Finalmente achei essas benditas chaves! Minha bolsa devia se chamar buraco negro. Pelo menos dessa vez a fechadura colaborou. Mas que barulho é esse? Minha televisão ficou ligada? Não!...

- Bom dia sobrinha! Fiquei sabendo que tu tava aqui em Porto! Tua mãe me ligo ontem... Há quanto tempo tu ta aqui na capital?
Merda...
- Oi tio Thiago! Acho que já faz uns três meses... Não liguei pra você porque estava ocupada com toda aquela coisa da transferência.
- Ah sim, entendo! – Meu tio sempre querendo me deixar surda...
- Como conseguiu entrar?
- Ah! Eu conheço o sindico! É um velho amigo meu! Mostrei uma foto tua pequena e ele abriu pra mim...

Mas que maravilha! Então se algum tarado mostrar minha foto bebê ele entra no meu apartamento? Rum, não adianta. Até hoje a Érica foi uma das poucas pessoas que conheci que faz jus ao que dizem sobre o gaúcho ser mais culto. Ela é calma, educada e controlada! Incrível como parece que ela nunca se estressa com nada! Sinto como se pudesse passar o resto da minha vida com ela. Por isso fico com medo, me afasto... Não sei como reagiria a um compromisso desses.

Marquei um encontro com ela lá na Redenção. É incrível. Ela nem reclamou do frio horrível que faz por aqui... A uma hora dessas já deve estar lá me esperando. Só vou me livrar do tio Thiago e vou pra lá... Mas por falar nisso, o que meu tio faz aqui?

-Então tio, o que te traz ao meu humilde novo lar?

- Gostei do sotaque em! Ta aprendendo...

Ele esta tentando me despistar? Eu conheço você mocinho! O que anda escondendo?

-Eu me esforço né... – ri – Aconteceu alguma coisa?

- Nada de mais! É que vou me mudar pro apartamento de cima.

O QUÊ??

 -Sério? Nossa... Que bom. Mas por quê? – Minha voz inevitavelmente se tornou mais agressiva ao longo da frase.  

- Bom, é meio que um acordo entre eu e a tua mãe. Ela anda meio preocupada com o teu comportamento ultimamente e achou que seria bom ter eu aqui por perto pra te dar uma força... Te guiar pela cidade. E também... Eu ando tendo uns problemas de saúde sabe sobrinha, e é sempre bom ter alguém da família por perto quando isso acontece.

- Problemas? Quais?

- Coisas do coração. Colesterol... Essas coisas.

P#!&8!!!!

- Nossa tio! Você deveria ir ao médico já!

- E vou! Na verdade vim aqui também pra te pedir pra me acompanhar...

C#!&8!!!

- Ai tio... É que eu tinha um compromisso marcado pra tarde.

- É que é importante que tu esteja junto! O médico disse que é bom ter alguém ciente do problema... Pra saber o que fazer, sabe?

- Ah...

Que droga! Pensei que vindo pra Porto Alegre teria mais liberdade! Mas é claro que a dona Lurdes não ia me deixar em paz. Nunca devia ter dito pra ela com que tipo de pessoa eu gosto de namorar. Porque não me deixa viver, em sua Louca!

- Ok. Se é importante desse jeito, eu posso ir. Só me dá um tempinho pra avisar a minha amiga...

-Claro!

Vai ter que ser por mensagem. Se eu ligar pra ela meu tio percebe de cara que tipo de amiga ela é... Só pela minha voz eu adivinharia. Mas o que eu falo? Tadinha da Érica. Já deve ta lá naquele frio... Me esperando!
“DESCULPAA!! NÃO FOI MINHA CULP..” Não, assim eu assusto ela. “Minha família ataca de novo! Eu queria muito te ver mas..” Não. Muito cansativo. O dia dela já não vai ser muito bom, a notícia não pode ser pesada.
“Surgiu um imprevisto, desculpa amor, mas hj n vou poder te encontrar :*” Perfeito! Enviar... Só espero que ela não fique mal comigo.

- Pronto. Que horas é a sua consulta?

- Daqui meia hora no HCPA.

O silencio imperou sobre nós. Tanto eu quanto meu tio queríamos manter uma boa sintonia, mas estava ficando extremamente impossível ser agradável... Demoramos cerca de quinze minutos até entrar no carro do meu tio e colocá-lo em movimento. O transito estava meio congestionado e ficamos uns dois minutos parados ao lado da redenção. Fiquei imaginando se Érica ainda estava lá...

- Será que você não vai se atrasar tio?

- Não. Na verdade a consulta é daqui uns quarenta e cinco minutos, mas é sempre bom chegar um tempo antes!

Que bom saber disso. Agora sim estou em estado de TPM! Melhor olhar pra rua pra ver se assim me distraio... Realmente tem uma boa sena pra me distrair.Uma moça de cabelos negros e pele muito branca corria desesperada segurando a mão daquele que deve ser seu namorado. Muito suspeito esse carinha em... melhor ela se cuidar com os amigos. Estranho, essa roupa dela é tão familiar... Peraí! Aquela é a Érica! Meu deus deve ter acontecido alguma coisa terrível pra ela estar tão pálida... E. Porque ela ta de mão dada com aquele cara? Não entendi... Ela não está normal. Esse olhar não é normal.  
  
Érica, você queria terminar comigo hoje?


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Entre paredes

Meu nome é ninguém.
Aquela que não esteve
Aquela que não fez
Aquela que não é.
Mas se existo
É porque algo sou
E se algo sou
Não posso ser nada
Pois para ser nada
Você não pode ser alguém.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O Louco


Eis que aqui estou
Isolada, cortada, fora dos planos
Novamente
Quais minhas opções?
As horas se repetem, entram em capicuas
Escolher não é uma opção
Se fosse
Meu sentido em estar viva
Não seria meramente ficção