terça-feira, 1 de novembro de 2011

Contos do Espelho das Graças

No último cigarro, parte onze:

8:00 AM, ainda é cedo, vou dormir mais um pouco... 9:00 AM, só mais cinco minutos. (...) 11:00 AM, que barulho é esse?! Ah, o interfone... Quem poderia ser? Ai meu dedinho! Que merda esse rodapé da cama, só serve pra bater o pé! Se ele não sustentasse o meu colchão de uma maneira tão eficiente juro que pegava uma serra e transformava tudo em lenha!

- Sim?

Minha voz deve ter saído com um aspecto horrível, a pessoa nem ta respondendo.

- Quem fala?

Eu podia estar dormindo agora, então desembucha!

- Hã... Oi Érica! Aqui é a Alice... Não sei se tu ainda se lembra de mim.

- Alice... Tu não deveria estar na aula agora?

Meu sono me impede de ser educada.

- Eu poderia dizer o mesmo. Mas não. Hoje é a minha “folga” na semana. Posso entrar?

Entrar? Droga, como que ta o meu cabelo? Eu to de calça? Ah, to sim.

- Entra aí.

Eu tenho o tempo dela subir três lances de escada pra dar uma ajeitada aqui. Puts, acho que não vai dar tempo, isso aqui ta um caos! Vou escovar os dentes.

Beee!

Saco, ela já ta na porta! Ok, pelo menos deu pra dar uma escova. Nossa, minha cara ta toda amassada. Vou abrir essa bendita porta marrom.

- Oi Érica! Há quanto tempo... Tu corto o cabelo?

Nossa, a Alice não mudou nada! Parece até que ta com a mesma roupa de quando a gente se viu pela ultima vez. Só os óculos... Esses são redondos e não quadrados, acho que combinou mais com ela.

- Sim e não. Como que tu ta? – Me aproximei e abracei ela, deixando sem reação. Pelo visto eu ainda mexo com ela.

- Bem né. Entediada, mas saudável! Depois que te deu essa Loca aquele curso quase que perdeu a graça. Mas como assim “sim e não”, ele ta bem mais curto do que eu lembrava!

-Bom. É que eu cortei ele, mas já faz um tempo... Na verdade eu cortei em casa na semana passada...

Alice ficou de boca aberta.

- Cruzes! E tu teve coragem? Teu cabelo era tão lindo antes!

- Muito obrigada pelo “antes”, acho que fiz cagada mesmo.

- Ah... Mas ele ta legal agora também. Só da um choque pra quem não ta acostumada.

O primeiro silencio constrangedor em que ela ficou me olhando com aqueles olhos brilhantes se deu início e agora me pergunto se devo perguntar o porque da visita dela ou não. Não sei se quero saber.

- Então... Quer comer alguma coisa? Tem pão e café...

- Na verdade eu vim pensando em te convidar pra almoçar. Precisamos colocar a conversa em dia!

Conversa...

- Aonde seria?

Percebi que tinha uma carteira de cigarro com exatamente O ultimo deles me olhando de cima do balcão da cozinha. Que tentação!

- Isso tu vai ter que descobrir. Não to afim de ficar explicando! Agora tira esse olho de cima daquele cigarro!

Olha! Ta ficando imponente a moça! Pena que agora não seja o momento certo pra isso. Ai Alice. Hoje eu realmente não to com ânimo pra sair.

- Aonde tu quer ir?

- Ah, ta bom! Pode ser em qualquer um aqui perto. Acho que vi um vegetariano bastante promissor pelas redondezas...

Vegetariano? Não chego a ser vegetariana, mas adoro comida sem carne. Se o preço não for muito indigesto até que seria uma boa. Mas o que eu não sei é o que ela veio fazer aqui... Faz tempo que eu não vejo essa guria, mas eu conheço essa cara! Aí tem.

- E então?

- Aiai, que horas são?

- Hora de se mexer! - Lá vai ela entrando pela minha porta toda animadinha – Vamos lá Érica, o que tu tem que fazer pra ficar pronta?

É, acho que não tenho escapatória.

- Espera aí na sala. Daqui a pouco eu to pronta.

- Ta bom. - Voz de triunfo, merda, ela soube exatamente como me convencer. Estudante de psicologia é foda.

Me arrumei rapidamente, nem tinha muito o que fazer com o cabelo, só coloquei um creme pra deixar ele um pouco espetado. O que me incomoda nela são esses jogos psicológicos. Se gosta de mim fala logo guria! Do jeito que as coisas vão eu até poderia te dar uma chance. Só não sei se me arrependeria ou não.

- Já ta pronta?

O que ta fazendo aí na minha estante? Sabia que tava me estudando. Tá, ta bom, eu devo estar exagerando.

- To.

Peguei o gracioso cigarro em cima da mesa e acendi.

- Vamos?

-Vamos. - Olhou torto pra ele como eu sabia que faria.

O restaurante era realmente perto, em menos de dez minutos já estávamos lá. Conheço algumas pessoas que definiriam o lugar como uma espécie de viveiro de “ecochatos”, ou simplesmente como um lugar clean. Até que é agradável... O branco das paredes se quebra com os efeitos da iluminação em tons de amarelo no teto e verde em alguns pontos perto do chão. Tem também esses quadros de frutas e paisagens que por algum motivo os restaurantes adoram. Alice escolheu uma mesa perto da parede, uma pequena pra duas pessoas, e eu a segui.

- Se eu te conheço, tu deve ta se perguntando por que eu te chamei aqui né?

Ela ta usando esse tom de brincadeira, mas eu sinto a cautela na voz dela. Aonde ta querendo chegar?

- É, acho que tu acertou.

-Não se pode esconder nada para os que tem o dom da psicologia! – riu – Bom. Esses dias eu encontrei lá no noss... No prédio da Psicologia o Julho. E me lembrei na hora que ele tinha feito aquelas “consultas” contigo.

Pressinto merda vindo por aí.

- Então decidi falar com ele pra ver se tinha contato com uma certa criatura que sumiu do mapa, não é Érica? Então ele me disse que não te via há tempo também, mas que tu ajudou ele num dia lá na Redenção. Daí eu decidi te visitar pra ver como tu tava...

- Hm.

- É... Vamos nos servir?

- Vamos.

Comi muito, comida vegetariana é tudo de bom! Pena que a comida não desceu tão bem quanto poderia, porque eu sei que ela não terminou o assunto. Ela vai concluir uma análise a qualquer momento.

- Eai?

- Eai o que?

- Gostou da comida?

O volume atual do meu estômago responderia isso por mim.

- Sim, bastante.

Um minuto de silêncio.

- Então Érica – Alice ajeitou os óculos arredondados sem tirar os olhos dos meus, lá vem a conclusão – O que eu queria realmente quando te convidei para vir aqui era te perguntar uma coisa... Não, na verdade fazer uma proposta.

As mãos dela estão em forma de delta com o cume virado para cima sobre a mesa, Alice sabe exatamente o que está fazendo. Que inveja.

- Érica Costa Castro, você aceitaria a mim como sua analista?

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