A estranha, parte doze
“Faz cinco
graus em Porto Alegre, venha começar o seu dia aqui com a gente!...” não sei
como esses radialistas conseguem essa disposição assim cedo - e com esse frio!
– de qualquer modo eu não consegui pregar os olhos a noite inteira. Fico
revendo o encontro que tive com minha mãe no restaurante anteontem. Parece até
que de alguma forma meu cérebro funcionou como um gravador, de modo que pode
repetir tudo o que ela disse a qualquer hora.
Não vou pra
aula hoje, ainda posso faltar mais de três dias nessa cadeira. Mesmo que eu me
prestasse a sair de casa duvido que desse jeito eu vá prestar pra alguma
coisa... O máximo que pode acontecer é perguntarem se estou bem (provavelmente
achando que uso drogas pesadas), na melhor das hipóteses eu esbarraria em Érica
em alguma esquina, nós iríamos para algum café, faríamos as pazes e então eu a
traria pra cá. Claro, vai sonhando Paola, se eu fosse você adotaria logo um
gato. Que horas serão? Cinco pras seis? Aiai.
“Filha, você
precisa tomar um rumo na sua vida. Eu não estarei aqui para sempre.... Na
verdade é sobre isso que eu vim falar com você hoje” NÃOOO, não quero lembrar
disso de novo cérebro! Me deixa em paz! Chega, tenho que fazer alguma coisa ou
vou enlouquecer. Que seja, vou trocar de roupa e dar uma volta na Redenção – só
espero não ser atacada por algum maluco... Pentear o cabelo: feito, escovar os
dentes: feito, colocar qualquer roupa confortável: foda-se estou pronta.
Sorte que o
meu apartamento não fica longe do parque, mesmo estando de óculos escuros não
devo estar caminhando de uma forma lá muito convencional. Parece até que estou
fugindo de alguém... De mim talvez. Nem parei pra pensar que a rua é meio
deserta as seis e dez da manhã. Duvido que alguma coisa esteja aberta também!
Sinaleiras, quem precisa de vocês à uma hora dessas, eu vou é correr. Arrg,
esse chão ta tão barrento... vou caminhar ali pro centro aonde tem concreto.
Incrível
como tem gente aqui nessa hora, não são muitas pessoas na verdade, mas eu
esperava menos. Esses corredores são mesmo uns viciados. Olha lá, tem alguém
sentado na beira da lagoa dos pedalinhos... Parece tão feliz quanto eu. Vou
passar mais perto... De longe não deu pra perceber, mas é uma mulher (e é
bonita a moça) acho que vou me sentar ali perto. Arg, essa grama ta molhada e
esse lugar ta muito frio! Esfregar as mãos não ta mais dando muito certo..
Gente, como ela é parecida com a Érica... Não fosse essa expressão tão
diferente, esses óculos retangulares, esse estilo de roupa diferente e o cabelo
curto eu diria que é ela sim.
- Posso
ajudar? - Antes que eu pudesse desfazer a minha cara de total assombro percebi
que ela estava olhando para mim e até a voz era igual, mas o tom é tão
diferente! - Hã... Tu ta olhando pra mim? – ela virou-se lentamente para olhar
para os lados.
-
S-Sim........ – Ótimo, agora só tenho que parecer menos louca – Desculpa, é que
você é muito parecida com... Uma amiga minha. E eu não dormi essa noite também.
- Eu também
não. As lembranças da minha mãe no final de sua vida me tiram o sono... Falei algo
de errado?
- N-não! É
que... Comigo foi a mesma coisa. Eu e minha mãe não nos damos muito bem sabe? E
quando eu me mudei pra cá ficamos mais distantes do que nunca. – não devia
estar me abrindo assim com uma estranha, mas ela é tão igual a Érica que me
sinto quase íntima dessa moça.. – Nessa última quarta nós almoçamos juntas. Ele
me disse que está muito doente... Está com câncer.
- Sinto
muito. Nunca é fácil.
Merda, não
queria chorar assim na rua, com essa estranha misteriosa... Merda! “Eu
começarei o tratamento na semana que vem. Não sei se vou conseg...” as lágrimas
de minha mãe agora pareciam se materializar para fora de do meu próprio rosto, como se as dimensões se
juntassem e o passado tentasse voltar para o presente. Um barulho de lápis me distraiu
lápis raspando o papel.
- Pra você.
Peguei o
desenho feito as pressas da pseudo Érica, era uma princesa na janela de uma
grande torre que deveria pertencer a um castelo. A princesa chorava ao olhar
pelo horizonte.
- Essa é
você. – Ela se levantou lentamente e estendeu a mão para me ajudar a levantar,
eu aceitei. Ela me abraçou como se eu fosse muito menor, apesar de eu ser só um
pouco mais baixa. Não aguentei e voltei a chorar. – Por favor, entenda, não
tenha medo da liberdade. Isso é um processo que pode doer..
-
O-obrig-ada... – Não tinha reparado, mas os olhos dela também são verdes como
os de Érica. Não pode ser! – qual o seu nome?
- Assinei o
desenho. Cuide-se.
Fiquei olhando
ela se afastar devagar. Isso é um sonho? Virei o desenho para ver a assinatura
“LH”. É alguma piada?