segunda-feira, 7 de março de 2011

Contos do espelho das graças

 Nos labirintos da mente, parte sete:

Andar. Parar. Seguir. Virar. Esquerda, direita. Desviar do buraco na calçada. Cheguei. Dizem que não existe lugar no mundo melhor do que a nossa casa, mas eu tenho minhas dúvidas. Se esse é o melhor lugar do mundo, então porque é aqui que tenho as minhas piores crises de depressão?

Checo a secretária eletrônica. Uma mensagem. “Deje su mensaje después del tono” “Oi Julho. Queria te ver. Queria esclarecer as coisas na verdade... Me liga tá? Tchau.” Fim da mensagem. A voz de Leandro era indecisa, não sabia se queria ser dura ou sentimental. Eu ligarei... Mas não agora.

Meu estomago ronca, clamando por comida. Fui até a geladeira para atender as preces de minhas entranhas. Não tinha muita coisa, nada que eu quisesse comer na verdade. Assim como é com as pessoas... Pois é. Essa frase ficou meio vulgar, mas é a pura verdade. Mulheres não faltam a minha volta, no entanto, nenhuma me chama atenção.

Lembro daquela que chamou pelo meu nome no parque a duas semanas atrás. Sua voz era nostálgica aos meus ouvidos, mas isso eu não pude entender... Aquele rosto era familiar, mas não consigo lembrar da onde o conheço. Os olhos verdes e profundos dela era o que mais me intrigava, eu tinha aquela certeza irritante de que os conhecia; como? Tente se lembrar Julho! Estatura mediana, cabelos na altura dos ombros, negros, extremamente negros. A pele contrastava com esse tom forte, era branca, muito branca. Com certeza deveria se cuidar com o sol. Mesmo assim. Não me lembro. Ela não quis revelar seu nome, apenas adivinhou o meu por “coincidência”.

De qualquer forma devo ser grato a ela. Pelo visto o perigo me ronda até onde eu o ignoro. Abro a última gaveta da geladeira: dois cachos de uva. No primeiro os grãos eram saudáveis e graúdos, porém em pouca quantidade. Já o segundo era realmente grande, mas muitos grãos estavam um tanto murchos ou inválidos. Qual deles pegar?

Escolhi o segundo, como se assim estivesse escolhendo meu destino e reconhecendo o meu passado. Um nome me veio em mente: Érica?   

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