sábado, 5 de fevereiro de 2011

Contos do Espelho das Graças


Gorilas no parque, parte cinco

Nem acredito.

Não acredito que em pleno inverno eu estou aqui na Redenção. Sabe em que mês estamos? Estamos em Julho! É simplesmente o mês em que o inverno começa. Só uma coisa me traria aqui num dia cinza e frio como esse. Ou melhor, uma pessoa. Que por falar nisso ainda não me deu notícias... Aonde anda essa Paola afinal?

Checo o meu celular, que por uma triste coincidência continha uma mensagem de Paola. Gelei. As coisas realmente tem andado meio estranhas. É sempre ela que me procura, quando eu tento alguma coisa não recebo retorno. Mas ela não me daria um cachorro assim na cara dura...

Abri a mensagem. “Surgiu um imprevisto, desculpa amor, mas hj n vou poder te encontrar :*”

Óóó ela me chamou de amor! Que amor. Mas como assim um imprevisto!? Foi idéia dela vir aqui hoje. Arr, essa guria me mata!

Comecei a vagar pelo parque para ver se organizava minha mente. Não tinha muita gente aqui esta tarde. Analisei o ambiente a minha volta. Muitos casais heteros - muitos desperdícios nas mãos de brutões – alguns casos suspeitos e de vez em quando uma que outra bem assumida.

Não gosto de me analisar, tenho medo de minhas conclusões. Mas acho que se me visse na rua conseguiria adivinhar de qual lado do muro estou, afinal nunca tentei me esconder. Mas também nunca fiz questão de me mostrar ao mundo por livre e espontânea vontade...

Um uivo alto e agudo de cachorro me chamou a atenção, causado por alguma surra com certeza. Olhei mais adiante e vi um pequeno grupo de homens bombados e brancos de cabeça raspada. Eram três. Dois com altura mediana e um consideravelmente alto. O maior tinha uma tatuagem nazista na parte superior do braço.

Era só o que me faltava! Mais um daqueles cabeças de rolon com regatas e camisetas justas – para usar uma roupa assim em pleno inverno eles não podem ser normais, talvez estejam sobre efeito de alguma droga. Alguém devia prendê-los antes que façam alguma merda! O que certamente farão. Só espero que não encontrem nenhuma vítima nesse lugar, detestaria ver algum daqueles homens afeminados sendo violentados numa tarde de inverno como esta, onde tudo o que eu queria era estar dormindo.

Olhei em volta. Estávamos perto do lago dos pedalinhos, e tudo o que eu não queria ver estava lá. Um homem jovem e delicado, cabelo bem loiro e escovado. Roupas justas, franja pro lado, óculos de grau retangulares. Vítima encontrada. E agora José?

Para minha mais sincera tristeza o grupo de gorilas albinos na minha frente o localizou quase que ao mesmo tempo. Deram algumas risadas. Se poram a andar na direção do alvo. O frio invadiu minhas roupas e penetrou minha alma. Tentei em vão não rever minhas memórias que passavam como um filme na minha cabeça. Um menino loiro, uma garagem, um ferro de passar roupa. Precisava fazer ele parar. Precisava que alguém parasse. Não sabia o que fazer. Que dia é hoje? Em que mês estou?

- Julho!! – gritei a primeira coisa que consegui pronunciar e corri ao encontro daquele estranho em apuros. Por coincidência ele despertou de seus pensamentos e olhou em minha direção.

Ultrapassei com a maior velocidade que pude aqueles três indivíduos - que pararam para entender o que se passava – eu não sabia o que estava fazendo e também não sabia o que faria, mas meu desespero me guiava. Joguei-me nos braços dele como se fossemos íntimos, não tive estomago para fazer algo além de abraçá-lo forte. – Vamos! Estamos atrasados!

Puxei ele com a maior força que tive. Não foi difícil conduzi-lo, ele parecia leve e frágil apesar de ser quase uma cabeça maior que eu. Não me disse nenhuma palavra e nem ofereceu qualquer resistência. Como se de alguma forma ele esperasse por isso.

Mais um maluco na minha vida, só eu mesmo pra me meter nessas encrencas!

Arrastei o infeliz para a beira do parque, onde se viam os carros e o asfalto. E agora gênio? Quis dar uma de mulher maravilha, muito bem! Agora cuida do mocinho.
- Então. Tu tá bem?

- Claro. Correr não me machuca. – a voz dele era firme e grave. Em nada lembrava a sua aparência.

- Arrã. Bom. Tome mais cuidado por aí está bem? Nem todos tem a mente aberta hoje em dia.

- Como assim?

- Ah. Neonazistas, sabe? Tinha três indo na tua direção.

- Nossa. Acho que devo te agradecer então.

- Não precisa. Vou pra casa ver se consigo falar com a minha namorada. – Paola e eu não éramos
exatamente compromissadas, mas era bom deixar as coisas claras afinal.

- Ótimo. Boa sorte então.

- Certo... Vou indo então... (fui me afastando tentando ser natural)

- Pode me responder uma coisa?

- Hm... Posso.

- Como sabia o meu nome?

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