LH, parte quatro
Meu nome é Julho.
Com LH mesmo: J-U-L-H-O. Até hoje todos quando vêem meu nome escrito em algum lugar comentam “Olha, escreveram o teu nome errado”. E então eu começo a recitar aquela explicação elaborada e decorada faz anos.
“Não está errado, é assim mesmo que se escreve. Em homenagem ao mês de Julho, que não foi quando eu nasci, mas foi quando meu pai morreu”. Nessas horas alguns ainda demonstram algum tipo de pesar – mais por educação do que por comoção – e outros expressam todo o seu sentimento com um simples “hm”.
Sou órfão de pai. Já me acostumei com isso. Às vezes penso se não foi melhor assim; segundo minha mãe – vítima do câncer já faz três anos – ele era uma pessoa muito conservadora e teria me renegado. Sendo assim, mesmo que ele não tivesse morrido em um acidente de carro no meu quinto mês de gestação, hoje eu ainda não teria um pai.
Não guardo mágoas de minha mãe. Mesmo que no dia em que me assumi gay ela tenha me expulsado de
casa. Verdade é que eu a amo muito e que no fim fizemos às pazes.
Pena que tenha sido dentro de um quarto de hospital...
Normalmente eu sei lidar com a saudade, mas quando a solidão me sufoca eu venho pra cá, na Redenção. Fico sentado na beira do lago, admirando as pessoas andarem nos pedalinhos em forma de cisne. Afinal foi minha mãe que me apresentou este local.
Aqui eu me desligo, ignoro qualquer perigo que possa me rodear. As pessoas, o preconceito, a solidão; nada disso me toca, nada disso existe pra mim agora.
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