sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Contos do espelho das graças

A garota do espelho, parte dez:

Se não me engano foi aqui, no prédio de psicologia ao lado do planetário. Ela era só uma aluna, mas eu queria falar com alguém. Alguém que quisesse me ouvir não apenas pelo dinheiro – até porque eu não poderia pagar.

Quero agradecer a ela por tudo. Ouviu meus desabafos e me salvou de uma surra. Preciso que ela saiba como me fez bem antes da minha partida. Eu, que sei como é encarar o preconceito das pessoas de frente, imagino os problemas e desafios que ela deve estar passando. Entrei pelo portão principal, o guarda na guarita nem me notou. Fui andando até onde eu sabia ser a recepção do curso. Não sabia como iria encontrar Érica no meio desse prédio, mas estava contando com a sorte e seguindo a minha intuição. Eu podia sentir. Era ali que eu deveria estar agora.

Fui em direção a uma funcionária – não parecia muito feliz – reconheci ela da outra vez em que estive ali.

- Pois não? – Me recebeu sem ao menos ver o meu rosto.

- Bom, como explicar... Eu vim encontrar uma aluna do curso de psicologia, Érica o nome dela, sabe como posso achá-la?

- Olha meu amigo, não tenho muito o que fazer por ti. Tu consegue imaginar quantas Éricas podem estar nesse prédio nesse momento? Sugiro que use a internet, vocês jovens são bons nisso afinal.

Internet... Se eu tivesse uma.

- Está bem. Obrigado, tchau.

Que coisa. Parece que a minha intuição estava errada afinal. Foi muita ingenuidade minha achar que vindo aqui eu a encontraria facilmente.

- Ei! Tu aí! Espera!

Uma voz feminina me chamou a atenção. Pelo visto a minha entrada aqui não deve ser permitida. Ela veio correndo, não me lembro dela. Cabelo castanho escuro, médio e preso, com muitas mechas soltas. Olhos também castanhos, porém  brilhantes. Óculos arredondados, um pouco fora de moda, Jeans levemente boca de sino, um all star verde surrado e uma camiseta preta desbotada dos Beatles que parecia combinar com a sua pele levemente bronzeada.

- Eu me lembro de ti! Fez consulta com a Érica no início do ano! Como que tu ta?

Aproximou-se e me cumprimentou com um beijo na bochecha. Cheirava a café.

- Bem. Na verdade vim procurá-la pra agradecer a ajuda...

- hm.. Então pelo jeito tu também não tem mais contato com ela não é? Que droga, achei que poderia ter alguma notícia.

- Como?

- Vem,vamos tomar um café, que eu te conto a história. Nossa esse curso sem a Érica tem sito bem mais maçante. Um tédio pra ser mais exata!...

Seguimos em direção ao que deveria ser a cafeteria do lugar. Ela falava comigo como se fossemos amigos. Parecia ser uma pessoa legal. Mas eu estava intrigado. Porque Érica não vinha mais pra faculdade? Se ela não a via há tanto tempo, essa não deveria ser a namorada dela.

- Foi no final de Abril, se não me engano – ela chegou ao ponto mor da história quando já estávamos sentados em umas das mesinhas quadradas e esperando pelos dois capuccinos - Érica havia começado a se comportar de uma maneira muito estranha... Começou a perder o equilíbrio. Como você sabe isso é uma coisa que não é característico dela. Um dia quando estávamos em uma aula direcionada aos traumas de infância ela simplesmente ficou pálida, saiu da sala logo em seguida. Cara. Ele era forte, aguentava qualquer tema numa boa! Ninguém entendeu essa reação dela... Todos deduzimos que ela tivesse algum histórico na família e nenhum psicólogo tem permissão de lidar com os problemas em que está envolvido de alguma forma. Não é seguro.

- Tu acha... Que eu tenho alguma coisa a ver com isso?

- ... Sim. Eu juntei as coisas sabe? Ela começou a ficar estranha logo depois de tu ter pedido a ajuda dela. Eu sabia que não era seguro ajudar alguém tão cedo. Mesmo que sejamos alunas esforçadas, ainda somos somente alunas.

- Então ela abandonou o curso?

- Espero sinceramente que não tenha feito isso. Ela tinha talento pra coisa... Acho que ela deve apenas ter trancado. Combina mais com o estilo dela.

Ficamos em silencio por um tempo enquanto a minha gratidão se convertia em culpa.

- Sabe – ela começou meio relutante – Se não for muito particular... Eu queria saber o que você contou pra ela. Eu sei que deve ser uma coisa muito intima! Mas... Eu estou preocupada com ela. Ela já fumava antes... Agora deve estar fumando mais do que nunca.

- Tu deve gostar muito dela. – ela congelou a expressão em uma cara de interesse - Bom. Acho que posso te contar sim... Se me prometer o sigilo absoluto esperado de uma psicóloga, é claro.

- Pode deixar comigo! Sou o sigilo em pessoa.

Apertou a minha mão como um sinal de cumplicidade.

- A propósito. Vamos nos apresentar devidamente! Me chamo Alice, em homenagem ao meu espelho!

- Prazer, me chamo Julho, em homenagem ao mês em que meu pai morreu.

Soltamos as mãos e rimos das nossas desgraças enquanto a garçonete trazia os nossos capuccinos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

terça-feira, 7 de junho de 2011

Contos do Espelho das Graças

Por outros lados, parte nove

Tento me acalmar pela décima vez. Meu tio ali na sala não pode perceber minha alteração, senão as coisas ainda podem ficar piores... Melhor é me concentrar em outra coisa que não seja a minha vida pessoal problemática, como vimos isso só leva a lágrimas. 

Como eu odeio chorar! Além de tudo meus olhos ficam vermelhos e inchados e, ainda por cima, doendo. É incrível como as pessoas conseguem deixar a minha vida tão complicada. Minha mãe em São Paulo quer me afastar de um “estilo de vida problemático” o que segundo ela me ajudaria nessa minha “fase confusa”. Que ódio que eu tenho de tudo isso! Quem precisa de terapia são eles.

Não sei como minha mãe tem coragem de defender os homens quando na verdade ela sempre falou mal do meu pai. Como se eu não estivesse estado lá para testemunhar aquele casamento infeliz durante toda aminha criação! Ainda por cima agora que eu tenho a chance de construir a minha própria vida ela fica se metendo. Ou mais precisamente metendo o meu tio. Que inferno.

Mas o que eu tenho pra essa semana mesmo? Hm. Tenho que adiantar esse ensaio pra terça feira, senão aqueles livros que tenho que ler pra sexta vão me matar, quase que literalmente!
-Paola?                

- Sim tio?
- Tu ta bem sobrinha?
- Claro. É só a tensão da faculdade...     
- Ah sim! Que curso tu ta prestando mesmo?
- Letras. Bacharelado, não licenciatura.
- Hm. Ok.  Quarta a tua mãe vai vim te visitar. Ela me disse que quer ver como que tu ta e discutir as tuas perspectivas...
- Ah sim. Claro.

 Meu tio apesar de um tanto bruto percebeu que eu não estava pra conversa e que a minha falta de animo pra discutir a notícia polemica só podia significar uma coisa: Quero ficar sozinha. E assim foi. Ele saiu do quarto e disse que ia pra sua casa.

 A vinda de minha mãe só me trazia uma coisa em mente. Ela com certeza vai me trazer mais perturbação. Que merda. Nem Letras eu queria fazer.  Minha vontade era de cursar Artes Visuais, ou História da Arte que fosse, as duas me parecem ótimas! Mas claro que esses não são cursos dignos pra ela! Melhor é ser professora então, assim como ela... Professora de Matemática. Depois de tanta briga eu ainda acabei cedendo com algumas condições: primeiro eu me mudaria pra uma cidade da minha escolha; segundo: não iria ser professora de matemática; e por fim, não seria professora e sim tradutora. 

Na hora eu não me dei conta, mas caí numa grande cilada. Pois uma a uma das minhas condições não estão sendo respeitadas pelo jeito... E quanto à história de ser tradutora... Eu realmente não sirvo pra isso! Me sinto totalmente fora do rumo apropriado pra mim.

Mas quer saber de uma coisa? Eu já sei o quero fazer. E sei o que quero mudar daqui por diante! Minha vida será minha e vou fazer com que as coisas comecem a dar certo. Entre minha vida acadêmica e eu, entre Érica e eu. Que chegue quarta-feira! Não tenho receio algum de mostrar pra minha mãe quem a filha dela é de verdade!

Contos do Espelho das Graças

Adubo de Érica, parte oito

“Mas da onde vc o conhece?” aiai, mais uma vez essa perguntinha? Mas que droga! Eu já respondi! “Não sei se realmente o conheço, é que ele me lembra um menino que eu conheci na infância” “Então porque vcs tavam conversando?” aaah! “A gente não tava conversando. Eu corri com ele pra fugir de um bando de neonazistas”. E o interrogatório pelo bate papo do computador continuou, mas por mais que eu me empenhasse não conseguia convencer Paola da minha inocência.

Também não era pra menos. Eu mesmo me surpreendo de quão absurda a realidade pode ser às vezes, mas o pior de tudo é que era a pura verdade! Mas que ciúme é aquele afinal? Ciúmes de um homem? Como assim? Isso é muita insegurança. Não pode ser sério.

“Érica, acho que isso é uma coisa importante pra ti, só que você não percebeu ainda... Eu vi o olhar na sua cara! E não era normal... Eu preciso saber o que te afeta tanto assim nessa história” “Escuta Paola, não era tu que queria terminar comigo a um tempo atrás? Porque todo esse interesse pela minha vida sentimental de repente, em? Não estou te entendendo.”

Ok. Se arrependimento matasse eu já estaria servindo de adubo pra alguma secóia na América do Norte agora. Como eu queria que esses programinhas tivessem a opção de “apagar”. Seria salvadora essa opção! Que merda, ela não ta respondendo. Ela não deve saber a resposta! Aah que droga. O melhor a fazer depois de uma cagada dessas é deixar a coisa esfriar. Há não ser que isso tenha magoado muito Paola... Mas o que eu to pensando? Ela nem deve ter levado isso a sério! Nosso relacionamento sequer chega a ser oficial. Será que a errada sou eu? Talvez eu devesse ter tomado a iniciativa desde o início... Aonde que ta o meu isqueiro? Mas que merda!

“Érica..” cancelei minha busca por um estante na expectativa do que estava por vir “Não quero pressionar você a nada. Acho que precisamos de um tempo pra colocar a cabeça em dia. E vou tentar fazer isso dar certo dessa vez.”

Paola parece estar offline. As mensagens serão entregues quando esse contato entrar.

Ah, então é aí que tu tava todo esse tempo? Seu danadinho! Vem pra cá. Ascende esse cigarro pra mim, ok? Hoje teremos uma longa noite pra pensar, meu velho amigo. Como será a vida de um adubo?

sexta-feira, 20 de maio de 2011

À la carte


A vida é um rodízio.
Onde massas boas e ruins se misturam
E quando chega a sua hora não tem mais jeito
A sua escolha irá moldar um novo mundo, uma nova dimensão
E tudo o que você tem terá que deixar ir, deixar seguir o seu rumo
Ou a sua degradação
Pois em um rodízio é sempre um depois o outro,
A sua vez também terá que passar.

domingo, 8 de maio de 2011

Victória R. Stone

Não existem motivos para eu existir, se não ser aquela voz dentro da nossa cabeça que mostra a idéia oposta. Eu sou o contra, a parte racional. Sou a fúria e também os pensamentos sinceros, perversos. Não sou cruel, sou humana. Quando ganho a voz sou mal compreendida, mas assim como nós sabemos ouvir, eu tenho a minha hora de falar!

Talvez você esteja me estranhando. Então eu digo: Você não me conhece. Pois se escrevo errado é por opção e se escrevo certo é por capacidade. Então me deixe explicar aquilo que há quase um ano atrás eu não quis. A letra V em meu nome é uma abreviação para Victória. Não pense que esse é o nome do nosso todo, pois não é. Apenas era para ser.

O nome da X era para ser Victória, mas eis que um certo amigo de seu pai teve uma filha antes e então o nome foi “usado”. Talvez eu seja para ela a o reflexo da injustiça, a demonstração de ira, de sinceridade explosiva. Talvez eu apenas seja uma parte que ela não quer dentro de si, mas que existe. Eu sou a indesejada dentro de mim e me torno indesejada quando sou exposta. V. R. Stone, Victória R. Stone. Não diga muito prazer, pois eu sei que pode ser mentira.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O mergulho

92, alguém me visitou.
Será que foi? Tanto faz.... Queria saber o que eles tem em mente
Aqui é onde eu estou segura, aqui posso falar.
Quantos anos você tem?
Que diferença isso faz?
Faz diferença se minhas intenções não forem as melhores... Bom, bom. Isso pode ser usado.

Do lado de cá ninguém me entende. Minha pele arde e minhas costas doem, o que deu em mim?
Se eu falar eles vão ver e irão me perseguir como fizeram com ela. E ela? O que aconteceu com ela?
Acho que a engoliram feito dragões e cuspiram aquilo que sobrou para o mundo acabar o que começaram
Acho que nunca mais será a mesma, pois o que o tempo não mudou ela o fez. Tanto faz para você agora.
É, tanto faz para mim. Acho que estou com problemas... O que faço da minha vida?
Acho que você poderia começar usando a sua mente para alguma coisa de util. bem melhor do que ficar por ai falando sozinha.
É mesmo. Meu transtorno acabou, já posso voltar ao mundo real.
Ótimo. Até a próxima então.