sexta-feira, 11 de março de 2011

Correnteza

Sempre ouvi dizer que não é bom se prender ao passado. Mas sabe de uma coisa? Às vezes a memória é tudo o que temos. Quando isso acontece o presente perde o sentido e acordar se torna cada vez mais desnecessário.
 Se você é como eu, sabe do que estou falando. Se não é, irá me chamar de maníaca depressiva. Eu não me importo. Porém existe um problema para nós que habitamos durante muito tempo o nosso próprio pensamento: O real se torna irreal e suas lembranças se tornam fantasiosas. O que leva a uma pergunta um tanto estúpida, porém perfeitamente pertinente...

- Isso existiu? Será que algum dia essas lembranças felizes realmente foram sólidas?

E eis que chegamos a um momento de risco para os navegantes de sua própria mente, um momento de colapso, de crise – pois não sabemos se aquilo o que nos restava, aquilo que tínhamos, era real.
 Estive em crise durante meses com minhas memórias e agora concluo que se elas de fato aconteceram ou não, não importa. Pois de uma forma ou de outra se foi; e por isso não existe mais, mesmo que algum dia o tenha. Me conformo com o presente, que é onde eu vivo e reparo nas cicatrizes não só do meu corpo, mas da minha alma, pois elas são a prova de que o passado existiu.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Contos do espelho das graças

 Nos labirintos da mente, parte sete:

Andar. Parar. Seguir. Virar. Esquerda, direita. Desviar do buraco na calçada. Cheguei. Dizem que não existe lugar no mundo melhor do que a nossa casa, mas eu tenho minhas dúvidas. Se esse é o melhor lugar do mundo, então porque é aqui que tenho as minhas piores crises de depressão?

Checo a secretária eletrônica. Uma mensagem. “Deje su mensaje después del tono” “Oi Julho. Queria te ver. Queria esclarecer as coisas na verdade... Me liga tá? Tchau.” Fim da mensagem. A voz de Leandro era indecisa, não sabia se queria ser dura ou sentimental. Eu ligarei... Mas não agora.

Meu estomago ronca, clamando por comida. Fui até a geladeira para atender as preces de minhas entranhas. Não tinha muita coisa, nada que eu quisesse comer na verdade. Assim como é com as pessoas... Pois é. Essa frase ficou meio vulgar, mas é a pura verdade. Mulheres não faltam a minha volta, no entanto, nenhuma me chama atenção.

Lembro daquela que chamou pelo meu nome no parque a duas semanas atrás. Sua voz era nostálgica aos meus ouvidos, mas isso eu não pude entender... Aquele rosto era familiar, mas não consigo lembrar da onde o conheço. Os olhos verdes e profundos dela era o que mais me intrigava, eu tinha aquela certeza irritante de que os conhecia; como? Tente se lembrar Julho! Estatura mediana, cabelos na altura dos ombros, negros, extremamente negros. A pele contrastava com esse tom forte, era branca, muito branca. Com certeza deveria se cuidar com o sol. Mesmo assim. Não me lembro. Ela não quis revelar seu nome, apenas adivinhou o meu por “coincidência”.

De qualquer forma devo ser grato a ela. Pelo visto o perigo me ronda até onde eu o ignoro. Abro a última gaveta da geladeira: dois cachos de uva. No primeiro os grãos eram saudáveis e graúdos, porém em pouca quantidade. Já o segundo era realmente grande, mas muitos grãos estavam um tanto murchos ou inválidos. Qual deles pegar?

Escolhi o segundo, como se assim estivesse escolhendo meu destino e reconhecendo o meu passado. Um nome me veio em mente: Érica?   

domingo, 6 de março de 2011

Contos do Espelho das Graças

Do lado de fora, parte seis:

- Quantos anos tu tem?

E você com isso. Ai ai, as pessoas hoje em dia não tem mais educação. Lá de onde eu vim as coisas são diferentes... Será que são mesmo?
- Quantos você acha?
- Eu não sei. Talvez, dezenove?
Tsc. Mais um metidinho a galã tentando me cantar.
- Sei não. Acho que a resposta vai ficar na sua imaginação mesmo.

Não suporto esses vizinhos tarados que tenho aqui no Sul. Ouvi dizer lá no Rio que aqui era terra de gente culta... Deve ser folclore. Nunca vi povinho mais nervoso! Perdem a cabeça por qualquer coisa e, quando se vê, já tão atacando um pedaço de boi. Tristeza que me dá isso... Finalmente achei essas benditas chaves! Minha bolsa devia se chamar buraco negro. Pelo menos dessa vez a fechadura colaborou. Mas que barulho é esse? Minha televisão ficou ligada? Não!...

- Bom dia sobrinha! Fiquei sabendo que tu tava aqui em Porto! Tua mãe me ligo ontem... Há quanto tempo tu ta aqui na capital?
Merda...
- Oi tio Thiago! Acho que já faz uns três meses... Não liguei pra você porque estava ocupada com toda aquela coisa da transferência.
- Ah sim, entendo! – Meu tio sempre querendo me deixar surda...
- Como conseguiu entrar?
- Ah! Eu conheço o sindico! É um velho amigo meu! Mostrei uma foto tua pequena e ele abriu pra mim...

Mas que maravilha! Então se algum tarado mostrar minha foto bebê ele entra no meu apartamento? Rum, não adianta. Até hoje a Érica foi uma das poucas pessoas que conheci que faz jus ao que dizem sobre o gaúcho ser mais culto. Ela é calma, educada e controlada! Incrível como parece que ela nunca se estressa com nada! Sinto como se pudesse passar o resto da minha vida com ela. Por isso fico com medo, me afasto... Não sei como reagiria a um compromisso desses.

Marquei um encontro com ela lá na Redenção. É incrível. Ela nem reclamou do frio horrível que faz por aqui... A uma hora dessas já deve estar lá me esperando. Só vou me livrar do tio Thiago e vou pra lá... Mas por falar nisso, o que meu tio faz aqui?

-Então tio, o que te traz ao meu humilde novo lar?

- Gostei do sotaque em! Ta aprendendo...

Ele esta tentando me despistar? Eu conheço você mocinho! O que anda escondendo?

-Eu me esforço né... – ri – Aconteceu alguma coisa?

- Nada de mais! É que vou me mudar pro apartamento de cima.

O QUÊ??

 -Sério? Nossa... Que bom. Mas por quê? – Minha voz inevitavelmente se tornou mais agressiva ao longo da frase.  

- Bom, é meio que um acordo entre eu e a tua mãe. Ela anda meio preocupada com o teu comportamento ultimamente e achou que seria bom ter eu aqui por perto pra te dar uma força... Te guiar pela cidade. E também... Eu ando tendo uns problemas de saúde sabe sobrinha, e é sempre bom ter alguém da família por perto quando isso acontece.

- Problemas? Quais?

- Coisas do coração. Colesterol... Essas coisas.

P#!&8!!!!

- Nossa tio! Você deveria ir ao médico já!

- E vou! Na verdade vim aqui também pra te pedir pra me acompanhar...

C#!&8!!!

- Ai tio... É que eu tinha um compromisso marcado pra tarde.

- É que é importante que tu esteja junto! O médico disse que é bom ter alguém ciente do problema... Pra saber o que fazer, sabe?

- Ah...

Que droga! Pensei que vindo pra Porto Alegre teria mais liberdade! Mas é claro que a dona Lurdes não ia me deixar em paz. Nunca devia ter dito pra ela com que tipo de pessoa eu gosto de namorar. Porque não me deixa viver, em sua Louca!

- Ok. Se é importante desse jeito, eu posso ir. Só me dá um tempinho pra avisar a minha amiga...

-Claro!

Vai ter que ser por mensagem. Se eu ligar pra ela meu tio percebe de cara que tipo de amiga ela é... Só pela minha voz eu adivinharia. Mas o que eu falo? Tadinha da Érica. Já deve ta lá naquele frio... Me esperando!
“DESCULPAA!! NÃO FOI MINHA CULP..” Não, assim eu assusto ela. “Minha família ataca de novo! Eu queria muito te ver mas..” Não. Muito cansativo. O dia dela já não vai ser muito bom, a notícia não pode ser pesada.
“Surgiu um imprevisto, desculpa amor, mas hj n vou poder te encontrar :*” Perfeito! Enviar... Só espero que ela não fique mal comigo.

- Pronto. Que horas é a sua consulta?

- Daqui meia hora no HCPA.

O silencio imperou sobre nós. Tanto eu quanto meu tio queríamos manter uma boa sintonia, mas estava ficando extremamente impossível ser agradável... Demoramos cerca de quinze minutos até entrar no carro do meu tio e colocá-lo em movimento. O transito estava meio congestionado e ficamos uns dois minutos parados ao lado da redenção. Fiquei imaginando se Érica ainda estava lá...

- Será que você não vai se atrasar tio?

- Não. Na verdade a consulta é daqui uns quarenta e cinco minutos, mas é sempre bom chegar um tempo antes!

Que bom saber disso. Agora sim estou em estado de TPM! Melhor olhar pra rua pra ver se assim me distraio... Realmente tem uma boa sena pra me distrair.Uma moça de cabelos negros e pele muito branca corria desesperada segurando a mão daquele que deve ser seu namorado. Muito suspeito esse carinha em... melhor ela se cuidar com os amigos. Estranho, essa roupa dela é tão familiar... Peraí! Aquela é a Érica! Meu deus deve ter acontecido alguma coisa terrível pra ela estar tão pálida... E. Porque ela ta de mão dada com aquele cara? Não entendi... Ela não está normal. Esse olhar não é normal.  
  
Érica, você queria terminar comigo hoje?


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Entre paredes

Meu nome é ninguém.
Aquela que não esteve
Aquela que não fez
Aquela que não é.
Mas se existo
É porque algo sou
E se algo sou
Não posso ser nada
Pois para ser nada
Você não pode ser alguém.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O Louco


Eis que aqui estou
Isolada, cortada, fora dos planos
Novamente
Quais minhas opções?
As horas se repetem, entram em capicuas
Escolher não é uma opção
Se fosse
Meu sentido em estar viva
Não seria meramente ficção

Geleiras de verão


Já pensou em morar em outro país? Sei lá, talvez pra ver se muda alguma coisa. Pra ver se é só por aqui que existe tamanha frieza nas ruas, tantas injustiças.
Imagino que mudar de continente não resolva. E se eu mudar de dimensão... Será que resolve?
Se for quero ir logo para uma dimensão cinco estrelas. Onde os sentimentos são valorizados e a vida vem antes da ganância – do materialismo. Fico imaginando se tal lugar existe... Segundo a teoria da relatividade (ou seria física quântica?) existe uma dimensão para cada probabilidade. Ou seja, o que pode acontecer acontece. Sim. Em alguma dimensão acontece.
Então que aconteça o que tem que acontecer. Estou cansada de tentar mudar o que não pode ser mudado. Deixo o dia acontecer e faço o que posso. Não posso mudar meu país, mas posso mudar minha sintonia. E isso eu já fiz. Agora o que me resta é saber em que dimensão fui parar.  

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Contos do Espelho das Graças


Gorilas no parque, parte cinco

Nem acredito.

Não acredito que em pleno inverno eu estou aqui na Redenção. Sabe em que mês estamos? Estamos em Julho! É simplesmente o mês em que o inverno começa. Só uma coisa me traria aqui num dia cinza e frio como esse. Ou melhor, uma pessoa. Que por falar nisso ainda não me deu notícias... Aonde anda essa Paola afinal?

Checo o meu celular, que por uma triste coincidência continha uma mensagem de Paola. Gelei. As coisas realmente tem andado meio estranhas. É sempre ela que me procura, quando eu tento alguma coisa não recebo retorno. Mas ela não me daria um cachorro assim na cara dura...

Abri a mensagem. “Surgiu um imprevisto, desculpa amor, mas hj n vou poder te encontrar :*”

Óóó ela me chamou de amor! Que amor. Mas como assim um imprevisto!? Foi idéia dela vir aqui hoje. Arr, essa guria me mata!

Comecei a vagar pelo parque para ver se organizava minha mente. Não tinha muita gente aqui esta tarde. Analisei o ambiente a minha volta. Muitos casais heteros - muitos desperdícios nas mãos de brutões – alguns casos suspeitos e de vez em quando uma que outra bem assumida.

Não gosto de me analisar, tenho medo de minhas conclusões. Mas acho que se me visse na rua conseguiria adivinhar de qual lado do muro estou, afinal nunca tentei me esconder. Mas também nunca fiz questão de me mostrar ao mundo por livre e espontânea vontade...

Um uivo alto e agudo de cachorro me chamou a atenção, causado por alguma surra com certeza. Olhei mais adiante e vi um pequeno grupo de homens bombados e brancos de cabeça raspada. Eram três. Dois com altura mediana e um consideravelmente alto. O maior tinha uma tatuagem nazista na parte superior do braço.

Era só o que me faltava! Mais um daqueles cabeças de rolon com regatas e camisetas justas – para usar uma roupa assim em pleno inverno eles não podem ser normais, talvez estejam sobre efeito de alguma droga. Alguém devia prendê-los antes que façam alguma merda! O que certamente farão. Só espero que não encontrem nenhuma vítima nesse lugar, detestaria ver algum daqueles homens afeminados sendo violentados numa tarde de inverno como esta, onde tudo o que eu queria era estar dormindo.

Olhei em volta. Estávamos perto do lago dos pedalinhos, e tudo o que eu não queria ver estava lá. Um homem jovem e delicado, cabelo bem loiro e escovado. Roupas justas, franja pro lado, óculos de grau retangulares. Vítima encontrada. E agora José?

Para minha mais sincera tristeza o grupo de gorilas albinos na minha frente o localizou quase que ao mesmo tempo. Deram algumas risadas. Se poram a andar na direção do alvo. O frio invadiu minhas roupas e penetrou minha alma. Tentei em vão não rever minhas memórias que passavam como um filme na minha cabeça. Um menino loiro, uma garagem, um ferro de passar roupa. Precisava fazer ele parar. Precisava que alguém parasse. Não sabia o que fazer. Que dia é hoje? Em que mês estou?

- Julho!! – gritei a primeira coisa que consegui pronunciar e corri ao encontro daquele estranho em apuros. Por coincidência ele despertou de seus pensamentos e olhou em minha direção.

Ultrapassei com a maior velocidade que pude aqueles três indivíduos - que pararam para entender o que se passava – eu não sabia o que estava fazendo e também não sabia o que faria, mas meu desespero me guiava. Joguei-me nos braços dele como se fossemos íntimos, não tive estomago para fazer algo além de abraçá-lo forte. – Vamos! Estamos atrasados!

Puxei ele com a maior força que tive. Não foi difícil conduzi-lo, ele parecia leve e frágil apesar de ser quase uma cabeça maior que eu. Não me disse nenhuma palavra e nem ofereceu qualquer resistência. Como se de alguma forma ele esperasse por isso.

Mais um maluco na minha vida, só eu mesmo pra me meter nessas encrencas!

Arrastei o infeliz para a beira do parque, onde se viam os carros e o asfalto. E agora gênio? Quis dar uma de mulher maravilha, muito bem! Agora cuida do mocinho.
- Então. Tu tá bem?

- Claro. Correr não me machuca. – a voz dele era firme e grave. Em nada lembrava a sua aparência.

- Arrã. Bom. Tome mais cuidado por aí está bem? Nem todos tem a mente aberta hoje em dia.

- Como assim?

- Ah. Neonazistas, sabe? Tinha três indo na tua direção.

- Nossa. Acho que devo te agradecer então.

- Não precisa. Vou pra casa ver se consigo falar com a minha namorada. – Paola e eu não éramos
exatamente compromissadas, mas era bom deixar as coisas claras afinal.

- Ótimo. Boa sorte então.

- Certo... Vou indo então... (fui me afastando tentando ser natural)

- Pode me responder uma coisa?

- Hm... Posso.

- Como sabia o meu nome?