sábado, 12 de fevereiro de 2011

Geleiras de verão


Já pensou em morar em outro país? Sei lá, talvez pra ver se muda alguma coisa. Pra ver se é só por aqui que existe tamanha frieza nas ruas, tantas injustiças.
Imagino que mudar de continente não resolva. E se eu mudar de dimensão... Será que resolve?
Se for quero ir logo para uma dimensão cinco estrelas. Onde os sentimentos são valorizados e a vida vem antes da ganância – do materialismo. Fico imaginando se tal lugar existe... Segundo a teoria da relatividade (ou seria física quântica?) existe uma dimensão para cada probabilidade. Ou seja, o que pode acontecer acontece. Sim. Em alguma dimensão acontece.
Então que aconteça o que tem que acontecer. Estou cansada de tentar mudar o que não pode ser mudado. Deixo o dia acontecer e faço o que posso. Não posso mudar meu país, mas posso mudar minha sintonia. E isso eu já fiz. Agora o que me resta é saber em que dimensão fui parar.  

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Contos do Espelho das Graças


Gorilas no parque, parte cinco

Nem acredito.

Não acredito que em pleno inverno eu estou aqui na Redenção. Sabe em que mês estamos? Estamos em Julho! É simplesmente o mês em que o inverno começa. Só uma coisa me traria aqui num dia cinza e frio como esse. Ou melhor, uma pessoa. Que por falar nisso ainda não me deu notícias... Aonde anda essa Paola afinal?

Checo o meu celular, que por uma triste coincidência continha uma mensagem de Paola. Gelei. As coisas realmente tem andado meio estranhas. É sempre ela que me procura, quando eu tento alguma coisa não recebo retorno. Mas ela não me daria um cachorro assim na cara dura...

Abri a mensagem. “Surgiu um imprevisto, desculpa amor, mas hj n vou poder te encontrar :*”

Óóó ela me chamou de amor! Que amor. Mas como assim um imprevisto!? Foi idéia dela vir aqui hoje. Arr, essa guria me mata!

Comecei a vagar pelo parque para ver se organizava minha mente. Não tinha muita gente aqui esta tarde. Analisei o ambiente a minha volta. Muitos casais heteros - muitos desperdícios nas mãos de brutões – alguns casos suspeitos e de vez em quando uma que outra bem assumida.

Não gosto de me analisar, tenho medo de minhas conclusões. Mas acho que se me visse na rua conseguiria adivinhar de qual lado do muro estou, afinal nunca tentei me esconder. Mas também nunca fiz questão de me mostrar ao mundo por livre e espontânea vontade...

Um uivo alto e agudo de cachorro me chamou a atenção, causado por alguma surra com certeza. Olhei mais adiante e vi um pequeno grupo de homens bombados e brancos de cabeça raspada. Eram três. Dois com altura mediana e um consideravelmente alto. O maior tinha uma tatuagem nazista na parte superior do braço.

Era só o que me faltava! Mais um daqueles cabeças de rolon com regatas e camisetas justas – para usar uma roupa assim em pleno inverno eles não podem ser normais, talvez estejam sobre efeito de alguma droga. Alguém devia prendê-los antes que façam alguma merda! O que certamente farão. Só espero que não encontrem nenhuma vítima nesse lugar, detestaria ver algum daqueles homens afeminados sendo violentados numa tarde de inverno como esta, onde tudo o que eu queria era estar dormindo.

Olhei em volta. Estávamos perto do lago dos pedalinhos, e tudo o que eu não queria ver estava lá. Um homem jovem e delicado, cabelo bem loiro e escovado. Roupas justas, franja pro lado, óculos de grau retangulares. Vítima encontrada. E agora José?

Para minha mais sincera tristeza o grupo de gorilas albinos na minha frente o localizou quase que ao mesmo tempo. Deram algumas risadas. Se poram a andar na direção do alvo. O frio invadiu minhas roupas e penetrou minha alma. Tentei em vão não rever minhas memórias que passavam como um filme na minha cabeça. Um menino loiro, uma garagem, um ferro de passar roupa. Precisava fazer ele parar. Precisava que alguém parasse. Não sabia o que fazer. Que dia é hoje? Em que mês estou?

- Julho!! – gritei a primeira coisa que consegui pronunciar e corri ao encontro daquele estranho em apuros. Por coincidência ele despertou de seus pensamentos e olhou em minha direção.

Ultrapassei com a maior velocidade que pude aqueles três indivíduos - que pararam para entender o que se passava – eu não sabia o que estava fazendo e também não sabia o que faria, mas meu desespero me guiava. Joguei-me nos braços dele como se fossemos íntimos, não tive estomago para fazer algo além de abraçá-lo forte. – Vamos! Estamos atrasados!

Puxei ele com a maior força que tive. Não foi difícil conduzi-lo, ele parecia leve e frágil apesar de ser quase uma cabeça maior que eu. Não me disse nenhuma palavra e nem ofereceu qualquer resistência. Como se de alguma forma ele esperasse por isso.

Mais um maluco na minha vida, só eu mesmo pra me meter nessas encrencas!

Arrastei o infeliz para a beira do parque, onde se viam os carros e o asfalto. E agora gênio? Quis dar uma de mulher maravilha, muito bem! Agora cuida do mocinho.
- Então. Tu tá bem?

- Claro. Correr não me machuca. – a voz dele era firme e grave. Em nada lembrava a sua aparência.

- Arrã. Bom. Tome mais cuidado por aí está bem? Nem todos tem a mente aberta hoje em dia.

- Como assim?

- Ah. Neonazistas, sabe? Tinha três indo na tua direção.

- Nossa. Acho que devo te agradecer então.

- Não precisa. Vou pra casa ver se consigo falar com a minha namorada. – Paola e eu não éramos
exatamente compromissadas, mas era bom deixar as coisas claras afinal.

- Ótimo. Boa sorte então.

- Certo... Vou indo então... (fui me afastando tentando ser natural)

- Pode me responder uma coisa?

- Hm... Posso.

- Como sabia o meu nome?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Like a joke

E quem decide o seu futuro.
Sou eu?
É ele?
Quem mais poderia ser
Senão quem faz seus pulmões se mover, seu coração bater...
Quem decide ninguém mostrará
E embora muitos tentem impedir
Uma hora quem sabe, você também saberá.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O mundo do presente


Não é fácil começar uma vida nova sabe? Existem coisas que a gente sente falta.
A segurança em quem somos é uma delas.
Nunca soube como seria perder tudo o que eu tinha, perder minha personalidade? Não sei bem se ainda a tenho. Mas alguma coisa sobrou pelo fato de que estou aqui escrevendo agora...
Tirei as imagens coloridas que há anos estavam presas nas paredes do meu quarto. Quando as vejo nuas e amarelas me sinto desesperada. É como olhar dentro de mim – onde antes haviam cores, imagens e significados agora não há mais nada – vejo apenas uma parede nua.
E o que eu faço? Não há o que fazer. Apenas tenha paciência. Bom saber que minha consciência não me deixou. Tenho alguma coisa além de objetos inanimados afinal.
Quem fala aqui é a Madame, aquela que não sabe bem o que quer; aquela que não teve o que quis; aquela que um dia será esquecida.
Meu mundo morreu no presente, aquele mundo que era meu agora vive no passado. É hora de inventar um novo, sobreviver. Preciso me reinventar e começarei agora: com esse texto.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Pergunta de utilidade privada

Sabe de uma coisa? Eu estou cansada de escrever para o nada. Ou melhor. Sei que uma pessoa lê o que eu escrevo, e essa pessoa é uma das únicas que sabe quem eu sou.

Pois bem. Por acaso é exatamente por isso que vim aqui revelar meus pensamentos a vocês. Estou com vontade de revelar quem eu sou; quando falo isso quero dizer que a X quer se revelar.

Com certeza qualquer um que ler isso vai pensar: Ta bom então, grande merda! Fala logo quem tu é porra. Se não for nessas palavras com certeza o sentido será semelhante... Mas e daí, qual o problema de se revelar?

A grande bosta no caminho seria a liberdade para falar sobre qualquer coisa sem que ajam julgamentos; essa liberdade não mais haveria. Isso sem falar nos Contos do Espelho das Graças (nossa, que nomezinho bem grande em!) que com certeza iria chocar muitos parentes e etc.

Meu pedido - sim, eu estou pedindo com educação - é que se você ler esse post comente aqui em baixo - sim, você pode comentar - o que acha sobre isso. Acha que a X deve revelar sua face em sites como o orkut e twitter como a autora da madame de pedra?

É isso cambada.

sábado, 18 de dezembro de 2010

A lógica da Madame não é tão festiva..

Dezembro.

Imagino se algum outro mês tem tal poder de abalar o ânimo de uma pessoa como Dezembro.

Realmente não consigo entender porque as pessoas gostam tanto de natal, de ano novo, de amigo secreto, de formaturas.. É tudo o fim. O fim de uma etapa.

Imagino que se os rituais de nossa cultura seguissem a minha lógica Dezembro seria passado em luto - luto por tudo o que acabou, por tudo o que não pode ser mudado.

Sempre existem despedidas, e o mês doze simboliza isso pra mim.

Logo depois vem Janeiro, o mês do vácuo mental. Onde tudo o que tu tinha não tem mais e tudo o que era certo virou incerto. Hora de reconstruir. Começar do zero.

Preciso de forças para recomeçar. Preciso de um chá para digerir o passado.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Contos do espelho das graças


LH, parte quatro

Meu nome é Julho.

Com LH mesmo: J-U-L-H-O. Até hoje todos quando vêem meu nome escrito em algum lugar comentam “Olha, escreveram o teu nome errado”. E então eu começo a recitar aquela explicação elaborada e decorada faz anos.

“Não está errado, é assim mesmo que se escreve. Em homenagem ao mês de Julho, que não foi quando eu nasci, mas foi quando meu pai morreu”. Nessas horas alguns ainda demonstram algum tipo de pesar – mais por educação do que por comoção – e outros expressam todo o seu sentimento com um simples “hm”.

 Sou órfão  de pai. Já me acostumei com isso. Às vezes penso se não foi melhor assim; segundo minha mãe – vítima do câncer já faz três anos – ele era uma pessoa muito conservadora e teria me renegado. Sendo assim, mesmo que ele não tivesse morrido em um acidente de carro no meu quinto mês de gestação, hoje eu ainda não teria um pai.

Não guardo mágoas de minha mãe. Mesmo que no dia em que me assumi gay ela tenha me expulsado de 
casa. Verdade é que eu a amo muito e que no fim fizemos às pazes.

Pena que tenha sido dentro de um quarto de hospital...

Normalmente eu sei lidar com a saudade, mas quando a solidão me sufoca eu venho pra cá, na Redenção. Fico sentado na beira do lago, admirando as pessoas andarem nos pedalinhos em forma de cisne. Afinal foi minha mãe que me apresentou este local. 

Aqui eu me desligo, ignoro qualquer perigo que possa me rodear. As pessoas, o preconceito, a solidão; nada disso me toca, nada disso existe pra mim agora.